Quando as Máscaras Caem

Posted in Sem categoria on 3 de março de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Prefácio

Há sociedades que não se sustentam pela violência explícita, mas pela encenação constante. Não é preciso proibir quando se pode distrair; não é necessário calar quando se pode confundir. O poder contemporâneo prefere o verniz ao confronto, o slogan à verdade, a aprovação pública ao debate real.

Estes sonetos atravessam esse território onde a aparência tornou-se método de governo. A praça exibe bustos de virtude enquanto negocia bastidores; o muro invisível separa mais do que qualquer concreto; o ouro polido recebe reverência enquanto a fome é traduzida em estatística aceitável. Não se trata apenas de política institucional — trata-se de um hábito cultural que naturaliza a encenação.

Arendt observou que o mal pode operar com normalidade burocrática. Orwell alertou para a manipulação da linguagem como ferramenta de domínio. Galeano mostrou como o mercado aprende a esquecer aquilo que o constrange. Aqui, essas intuições reaparecem não como citação erudita, mas como inquietação viva.

O homem ajustado, o eleitor seduzido, o consumidor distraído, o poeta que insiste em nomear — todos participam da mesma arena. O conflito não é apenas externo: é íntimo. Cada máscara retirada exige responsabilidade.

Se há algo que une estes poemas, é a recusa em aceitar o espetáculo como destino inevitável. A palavra surge não como ornamento, mas como instrumento de desvelamento. Nomear é retirar o disfarce. Recordar é contrariar o esquecimento conveniente. Perguntar é interromper o roteiro.

Não há ingenuidade aqui. Há consciência de que a encenação é sedutora, confortável e lucrativa. Mas há também a certeza de que nenhuma máscara é eterna.

E enquanto houver quem escreva contra o disfarce, a república das aparências não será absoluta.

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I – República das Máscaras

“O poder prefere a aparência à verdade.” (Inspirado em Hannah Arendt – Alemanha/EUA)

Na praça erguem bustos de virtude,
polidos rostos sem fissura ou dor;
mas sob o bronze vive o rumor
de pactos feitos em quietude.

Chamam “ordem” à velha servitude,
“bem comum” ao lucro maior;
e o cidadão, pequeno ator,
aplaude a própria inquietude.

Máscaras reinam na claridade,
cada qual vende a sua versão
como se fosse eternidade.

Eu rasgo o pano da encenação:
prefiro a frágil sinceridade
à glória oca da aprovação.

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II – Elegia ao Muro Invisível

“Minha identidade é o que me negam.” (Inspirado em Mahmoud Darwish – Palestina)

Entre ruas sem nome e sem retrato,
ergue-se um muro de opinião;
não é de pedra, mas de negação,
de olhares que recusam contato.

Chamam “medo” ao preconceito exato,
“prudência” à segregação;
mas cada rosto pede chão
e cada passo exige trato.

O muro cai quando alguém escuta,
quando o nome encontra o seu lugar,
quando a história não é disputada.

Se o mundo insiste na conduta
de excluir para governar,
eu ergo o verso como enxada.

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III – Sermão Contra o Ouro Polido

“O colonialismo começa na mente.” (Inspirado em Aimé Césaire – Martinica/França)

No templo erguido ao lucro e à taxa,
pregam fé no mercado invisível;
a fome é dado estatístico plausível,
e a dívida vira marcha.

Chamam “civilização” à farsa,
“progresso” ao grilhão previsível;
mas o povo, em murmúrio audível,
prepara a ruptura que não disfarça.

Não é sagrado o ouro polido,
nem eterno o trono que o sustém;
a história cobra o que foi omitido.

E quando o grito disser “amém”
não será hino do oprimido,
mas juízo contra o desdém.

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IV – O Homem e o Absurdo Eleitoral

“A revolta dá dignidade.” (Inspirado em Albert Camus – França/Argélia)

Prometem céu em urna lacrada,
distribuem esperança impressa;
mas a palavra muda depressa
quando a cadeira é conquistada.

Chamam “povo” à massa cansada,
“mudança” à mesma promessa;
a revolta, se se expressa,
é tida por desvairada.

Mas há dignidade na recusa,
no “não” que rompe o protocolo,
na crítica que não se desculpa.

Se o voto vira dolo,
a consciência recusa
ser cúmplice do rolo.

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V – Litania para um Nome Esquecido

“Se você não contar sua história, outro contará por você.(Inspirado em Toni Morrison – EUA)

No bairro antigo, sob luz incerta,
um nome cai no chão da memória;
ninguém registra a breve história,
ninguém reabre a porta aberta.

Chamam “caso” à vida deserta,
“trágico” ao fato sem glória;
mas a palavra, feita vitória,
ressurge quando alguém desperta.

Escrevo o nome em pedra clara,
não para culto ou altar,
mas para que a cidade o encare.

Se o mundo insiste em apagar,
o poema insiste e repara:
lembrar é resistir ao calar.

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VI – Confissão do Homem Ajustado

“A má-fé é fugir da liberdade.”(Inspirado em Jean-Paul Sartre – França)

Disse que não era comigo,
que o mundo gira e eu apenas sigo;
mas no espelho, rosto antigo,
vi meu silêncio como abrigo.

Chamei prudência ao medo amigo,
chamei “real” ao gesto ambíguo;
mas a consciência — aço antigo —
cortou-me o pacto vago e frio.

Ajustar-se é fácil conforto,
mas custa a espinha do querer;
cala-se a alma no porto.

Hoje escolho responder:
prefiro o risco torto
à paz de não me mover.

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VII – Crônica do Mundo que Se Vende

“O sistema é especialista em esquecer.” (Inspirado em Eduardo Galeano – Uruguai)

Vendem a chuva em garrafa fina,
o ar em lata, o sonho em série;
a infância vira estatística etérea,
e a guerra rende oficina.

Chamam “negócio” à fome menina,
“dado” ao pranto que fere;
mas a memória, quando interfere,
desmonta a farsa que domina.

Quem compra o mundo perde o chão,
quem vende a alma perde o nome;
há preço alto na transação.

E quando o lucro consome,
descobre-se tarde a lição:
nem tudo se compra ou se some.

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VIII – A Casa que o Corpo Habita

“A identidade é construção e combate.” (Inspirado em Sylvia Plath – EUA)

No quarto estreito da própria pele,
escuto vozes que me definem;
mas minhas veias se autodeterminam
contra o rótulo que me repele.

Chamam “desvio” ao que não convém,
“normal” ao molde repetido;
mas meu corpo, lúcido e erguido,
recusa o padrão que o contém.

Habito a casa que me invento,
não a que me deram pronta;
sou gesto, falha e movimento.

Se a norma me afronta,
respondo com pensamento:
ser é luta que não desmonta.

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IX – Salmo para um Século Cansado

“O poeta é a consciência inquieta.” (Inspirado em Czesław Miłosz – Polônia)

Século exausto de brilho falso,
de guerras breves e longas telas;
a verdade, entre janelas,
perde o lugar no palco.

Chamam “avanço” ao passo em falso,
“rede” às novas correntes paralelas;
mas há ainda vozes singelas
que recusam o gesto encalço.

O poeta não é santo ou herói,
é aquele que nomeia a dor
quando o discurso a corrói.

Se o tempo exige temor,
ele escreve e constrói
uma ética em fervor.

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X –  A Palavra Contra o Mundo

“A leveza é uma forma de precisão.” (Inspirado em Italo Calvino – Itália)

Quando o ruído cobre a cidade,
resta a palavra como lâmina;
não para ferir, mas para a trama
de outra possível claridade.

Chamam “utopia” à liberdade,
“ingênuo” ao gesto que reclama;
mas cada verso que se inflama
abre fissura na opacidade.

Não é espada, é semente;
não é grito, é consciência;
não é fuga, é presente.

Se o mundo insiste na aparência,
a poesia, persistente,
ergue o ser contra a indiferença.

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(Betto Gasparetto – ii-mmxiv)

O Confinamento da Linguagem

Posted in Sem categoria on 2 de março de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Prefácio

Há violências que não exigem gritos.
Basta uma sala cheia, palmas sincronizadas e a convicção de que tudo segue “como deve ser”.

Estes poemas não nascem da indignação teatral. Nascem da observação do cotidiano: o gesto burocrático que apaga um rosto, a palavra que suaviza o confinamento, a notícia que reduz um corpo a número, a liberdade convertida em vitrine parcelada, o medo rebatizado como prudência.

O que inquieta aqui não é o excesso de brutalidade explícita, mas a administração eficiente da injustiça. O mal contemporâneo raramente se apresenta como fúria; ele prefere o expediente regular, a justificativa técnica, a estatística organizada. Ele se legitima pelo aplauso — e o aplauso pode ser tão decisivo quanto a ordem.

Quando a violência é normalizada, ela deixa de parecer violência. Quando a linguagem muda, o fato também muda de nome. O confinamento vira segurança. A censura vira zelo. A desigualdade vira mérito. A indiferença vira neutralidade.

Esses sonetos recusam essa tradução confortável.

Não pretendem oferecer heroísmo. Também não prometem pureza moral. O foco é outro: revelar a engrenagem. Mostrar como a conveniência educa o corpo, como a memória resiste ao apagamento, como a palavra pode interromper o fluxo automático da obediência.

O poema, aqui, não é ornamento — é contraponto.

Enquanto houver quem transforme o sofrimento em gráfico, será preciso devolver o nome ao número. Enquanto houver quem aplauda para não se comprometer, será necessário escrever.

Não para salvar o mundo — mas para não participar do coro.

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I – A Banalidade do Aplauso

“O mal pode ser terrivelmente comum.”(Inspirado em Hannah Arendt – Alemanha/EUA)

Na sala cheia, palmas disciplinam
o gesto exato do homem correto;
ninguém pergunta ao rito obsoleto
por que as engrenagens assassinam.

Chamam “ordem” ao medo que ensinam,
“dever” ao silêncio mais discreto;
e o erro, de terno e voto secreto,
sorri enquanto as vozes declinam.

O mal não ruge — cumpre expediente,
bate o ponto, carimba o destino,
aplaude a própria culpa obediente.

E eu escrevo, contra o hino
que absolve o gesto indiferente:
pensar é o único desatino.

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II – Fronteira de Pó e Oliva

“Escrevo para que a terra não me esqueça.”(Inspirado em Mahmoud Darwish – Palestina)

Na linha seca entre pedra e vento,
um nome resiste ao mapa rasgado;
o soldado guarda o campo cercado,
mas a raiz insiste no cimento.

Chamam “segurança” ao confinamento,
“paz” ao muro armado;
e o trigo, sob o céu sitiado,
aprende a crescer em silêncio lento.

A pátria é mais que cerca e bandeira,
é voz que atravessa a fronteira
como água sob a areia.

Se o mundo fecha a cancela,
o poema abre a clareira:
ninguém exila uma ideia.

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III – Inventário da Cor Silenciada

“Minha boca será a boca das desgraças.”(Inspirado em Aimé Césaire – Martinica/França)

Catalogaram a pele em gavetas,
mediram o tom com régua moral;
chamaram “exótico” o que é vital,
e “raça” ao medo de suas metas.

Ergueram tronos sobre algemas discretas,
e à história deram verniz colonial;
mas a memória, vulcão ancestral,
arde sob as páginas quietas.

Não sou cifra em arquivo alheio,
nem figurante no drama do império;
sou a voz que recusa o freio.

Se o mundo insiste no critério,
eu escrevo — negro e inteiro —
contra o silêncio do cemitério.

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IV – O Estrangeiro em Plena Praça

“O absurdo é a claridade do mundo.”(Inspirado em Albert Camus – França/Argélia)

No centro exato da cidade clara,
sinto-me alheio ao próprio chão;
a praça vibra em exaltação,
mas o sentido me escapa e dispara.

Chamam “verdade” à voz que declara
certezas prontas na multidão;
eu busco o sol na contradição
que o absurdo íntimo me prepara.

Se nada salva, salvo o gesto lúcido;
se tudo é ruído, escolho o silêncio;
se a lei é máscara, fico intrépido.

Viver é resistir ao consenso:
na praça plena, permaneço único,
estrangeiro ao falso incenso.

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V – Manual para Esquecer um Corpo

“A memória é resistência.”(Inspirado em Toni Morrison – EUA)

Enterram o corpo com notícia breve,
três linhas frias e foto menor;
a cidade segue seu rumor,
o lucro cresce, a dor não se escreve.

Chamam “fatalidade” ao que não deve,
“estatística” ao sangue em flor;
mas a memória — semente e ardor —
rompe o asfalto onde a verdade ferve.

Não esquecerei o nome calado,
nem a rua que viu o disparo;
não deixarei o rosto apagado.

Se o mundo prefere o avaro,
eu guardo o gesto lembrado:
memória é justiça em preparo.

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VI – A Liberdade em Regime de Vitrine

“O homem está condenado a ser livre.”(Inspirado em Jean-Paul Sartre – França)

Vendemos a liberdade em parcelas,
com juros brandos e selo oficial;
o medo vira hábito social,
e a escolha se faz entre janelas.

Chamam “opção” às mesmas querelas,
“autonomia” ao script digital;
mas o ser, inquieto e visceral,
recusa o molde das sentinelas.

Livre é quem assume o peso do ato,
não quem repete o gesto esperado
sob o aplauso do contrato.

E se o mundo exige lado,
eu escolho o risco exato:
ser livre é ser responsabilizado.

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VII – Crônica do Mundo ao Avesso

“Somos feitos de histórias.” (Inspirado em Eduardo Galeano – Uruguai)

No mercado, vendem sonhos usados,
com desconto para quem não sonha;
a guerra vira tela risonha,
e os mortos, dados já somados.

Chamam “crise” aos salários cortados,
“ordem” à rua medonha;
a verdade, tímida e tristonha,
vive nos cantos ignorados.

Mas há histórias sob a poeira,
há vozes pequenas que sustentam
o peso da noite inteira.

E quando elas se levantam,
o império treme na cadeira:
a narrativa é arma que enfrentam.

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VIII – A Casa Dentro da Tempestade

“A mente é seu próprio lugar.”(Inspirado em Sylvia Plath – EUA)

Na casa estreita da própria mente,
a chuva bate com voz severa;
mas a janela, ainda que impera
a noite, guarda luz persistente.

Chamam “fraqueza” ao peito ardente,
“histeria” à dor sincera;
mas o pensamento não se encerra
na etiqueta conveniente.

Resisto à norma que me nomeia,
recuso o rótulo fácil e estreito;
minha verdade não se enleia.

Se a tempestade insiste no peito,
eu escrevo — e a palavra semeia
uma casa mais firme que o preconceito.

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IX – Voz Clandestina

“A tentação é ajustar-se.”(Inspirado em Czesław Miłosz – Polônia)

Aprendem cedo a dobrar a espinha,
a concordar com o poder sentado;
chamam “prudência” ao medo calado,
e “virtude” à consciência mesquinha.

A verdade vira voz clandestina,
o grito é vício mal tolerado;
mas há no íntimo um fado
que não aceita disciplina.

Ser conveniente é fácil caminho,
mas cobra a alma como tributo;
paga-se caro pelo vizinho.

Eu escolho o verso absoluto:
prefiro o risco sozinho
à paz comprada por luto.

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X – A Cidade Transparente

“A leveza é resistência.”(Inspirado em Italo Calvino – Itália)

A cidade ergue torres de vidro,
promete céu em condomínio fechado;
mas o chão, cansado e pisado,
sussurra verdades sob o ruído.

Chamam “progresso” ao brilho polido,
“futuro” ao passado reciclado;
e o homem, em aço moldado,
perde o rosto no próprio espelho líquido.

Quero leveza contra o peso bruto,
quero ar nas ruas comprimidas,
quero espaço no concreto astuto.

Se a torre vigia nossas vidas,
eu ergo o verso, agudo e enxuto:
transparência é romper as medidas.

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(Betto Gasparetto – ii-mmxiv)

A Banalização do Ser como Espetáculo

Posted in Sem categoria on 1 de março de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Prefácio

Há uma etiqueta ensinada cedo demais: sorrir enquanto se ignora, concordar enquanto se teme, prosperar sem perguntar quem ficou para trás. Estes sonetos surgem contra essa etiqueta. Não como sermão, mas como fricção. O que está em jogo aqui não é apenas a desigualdade evidente — é a coreografia elegante que a torna aceitável.

Em cada poema, a cena é conhecida: a miséria tratada como inconveniência estética; a cidadania reduzida a protocolo; a política convertida em espetáculo; o amor submetido à vitrine moral; a vida humana transformada em gráfico. O escândalo não é a violência explícita — é a sua administração polida. A pobreza aprende a ser discreta; o privilégio aprende a parecer natural.

Se Brecht desconfiava da moral que chega antes do pão, é porque o discurso frequentemente serve para disciplinar os que têm fome. Se Orwell alertava para a manipulação das palavras, é porque a troca de termos altera a percepção da realidade. Se Arendt analisou a banalização do mal, é porque a omissão organizada pode ser tão destrutiva quanto a brutalidade declarada. E se Bauman descreveu a fragilidade das relações contemporâneas, foi para mostrar como o descarte tornou-se método — inclusive nas relações humanas.

Aqui, a crítica não aponta apenas para instituições; ela atravessa o indivíduo comum — o cidadão exemplar que atravessa a rua para não ver, o espectador que aplaude o escândalo do dia enquanto esquece o de ontem, o consumidor que confunde liberdade com escolha de prateleira. O problema não é apenas estrutural: é cultural. É a normalização da indiferença.

Estes textos recusam a decoração do sofrimento. Não romantizam o excluído nem demonizam em caricatura o poderoso. Preferem expor o mecanismo: a linguagem que suaviza a exclusão, o espetáculo que substitui o debate, a moral que vigia o íntimo enquanto absolve o abuso público.

Se existe alguma aposta nestes poemas, ela não está na indignação efêmera, mas na permanência da pergunta. Perguntar quem lucra, quem cala, quem decide, quem desaparece. Perguntar é romper o roteiro previamente ensaiado.

Escrever, aqui, é não colaborar com o silêncio conveniente.

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I – Manual de Boas Maneiras para a Miséria

“Primeiro vem o pão, depois a moral.” (Inspirado em Bertolt Brecht – Alemanha)

Vendam-me um sonho em prestações suaves,
com brinde e selo “promoção do bem”;
a fome assina embaixo, e não convém
que a rua manche os ternos mais graves.

Nos salões, as virtudes são escravas:
sorri-se em prata, a lágrima é refém;
quem pede um prato ouve: “culpa de alguém”,
e o lucro segue, santo, pelas naves.

Chamam “ordem” ao cerco do pobre;
chamam “mérito” ao berço de veludo;
e a lei, de toga, ao fraco sempre cobra.

Eu rio — riso amargo, quase mudo:
a etiqueta perdoa o que encobre,
mas não perdoa o pão fora de estudo.

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II – Elegia ao País das Aparências

“A máscara é a verdade mais usada.” (Inspirado em Federico García Lorca – Espanha)

Na vitrine, a cidade se perfuma,
finge harmonia, vende luz e paz;
mas sob o asfalto a febre se refaz
e a noite engole a última pluma.

O povo aprende a respirar espuma:
aplaude o golpe, chama-o de “capaz”;
o medo vira moda, e satisfaz
quem troca a alma por qualquer suma.

E eu, poeta, no beco, desconfio:
o belo aqui é só verniz exato;
a fome tem o mesmo tom do frio.

Quem mede o mundo pelo próprio prato
não vê que a praça é palco e desafio:
sorri-se em público, chora-se no ato.

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III – Caderno de Instruções para Ser Invisível

“Falar é existir.” (Inspirado em Aimé Césaire – Martinica/França)

Aprendi o silêncio como ofício:
ser pouco, ser ninguém, ser só perfil;
ser sombra útil, número civil,
sem voz que desagrade ao edifício.

Chamam “progresso” ao velho precipício;
chamam “paz” ao porrete juvenil;
e a tela — tribunal volátil —
absolve o forte e vende sacrifício.

Mas há na língua um fogo subterrâneo,
um “não” que nasce quando a dor ferve;
um nome antigo que rasga o calendário.

Eu ergo a voz — e o muro não me serve:
prefiro o risco ao selo cotidiano;
ser invisível é morrer em breve.

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IV – Balada Cínica do Bom Cidadão

“O melhor carece de convicção.” (Inspirado em W. B. Yeats – Irlanda)

Sou “bom cidadão”: pago a minha pressa,
finjo não ver o corpo no chão;
assino a culpa na própria mão
e digo: “é triste”, enquanto atravessa.

Na fila, a alma aprende a ser promessa,
a esperar o milagre do balcão;
o pobre pede pão, recebe “não”,
e o rico chama isso de “progresso” à mesa.

Que cinismo gentil o da cidade:
ela condena o grito, ama o ruído;
chama “barbárie” a lucidez.

E eu, cúmplice, sei do meu sentido:
a neutralidade é vaidade —
uma virtude feita de vazio.

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V – Contrato Social de Vidro Fino

“Não se nasce livre: torna-se.” (Inspirado em Simone de Beauvoir – França)

Assinei com o mundo um papel brilhante:
“serás exemplo, dócil, regular”;
se te ferires, aprende a disfarçar,
sorrir na queda, agradecer ao instante.

Chamam “amor” ao controle elegante;
chamam “família” ao medo de mudar;
e o corpo, que queria respirar,
vira vitrine de um juiz constante.

Eu rasgo o molde: não por heroísmo,
mas por fadiga de ser figurino;
prefiro a verdade ao aplauso manso.

E se me chamam “fria”, “sem destino”,
respondo: é só higiene do cinismo —
liberdade exige um passo e um cansaço.

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VI – República do Aplauso e do Esquecimento

“Ser culto é o único modo de ser livre.” (Inspirado em José Martí – Cuba)

Na praça, vendem pátria em embalagem,
com hino curto e desconto no final;
o povo vira coro eleitoral
e a fome assina a própria sabotagem.

A cada crise, um show, uma passagem;
a cada escândalo, um moral viral;
o tirano sorri, sentimental,
e a lei cochila, amiga da vantagem.

Mas há um livro aberto no subsolo,
há uma escola teimosa em cada esquina,
há uma criança que pergunta: “por quê?”

Se a pergunta resiste ao caramelo,
o império treme — e a máscara termina:
um povo acorda quando aprende a ler.

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VII – A Parábola do Homem que Virou Estatística

“Até o leão precisa do contador de histórias.” (Inspirado em Chinua Achebe – Nigéria)

Morreu um homem — e foi só planilha:
célula fria num gráfico sem cor;
o noticiário deu-lhe um “favor”,
um número curto, e seguiu a trilha.

A rua cheira a metal e armadilha,
a fábrica mastiga o trabalhador;
e a fé do mercado, sem pudor,
diz: “é o preço”, e ergue outra rodilha.

Quem conta a história devolve o rosto,
repara o nome, resgata o passado;
sem narrativa, a vida é só imposto.

Eu escrevo: contra o cálculo dourado,
contra o esquecimento bem composto —
pois cada morto exige ser lembrado.

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VIII – Ministério da Verdade Cotidiana

“Quem controla o passado controla o futuro.” (Inspirado em George Orwell – Reino Unido)

A tela me vigia com ternura,
sugere o medo em forma de canção;
eu clico, concordo, dou permissão
à jaula doce da vida segura.

Mudam palavras, muda-se a postura:
“guerra é paz”, “miséria é ascensão”;
e a dúvida — pecado — vira razão
para cortar a língua da criatura.

Mas há um gesto antigo: desconfiar;
há um lápis que resiste ao algoritmo;
há uma janela aberta no pensar.

Eu rio do slogan, do culto mínimo:
quem chama “livre” o próprio colecionar
já vendeu a alma ao seu próprio ritmo.

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IX – O Amor em Tempos de Vitrine Moral

“O erotismo é a outra face da liberdade.” (Inspirado em Octavio Paz – México)

Amar aqui é cumprir protocolo:
postar sorriso, etiquetar afeto;
o beijo vira anúncio, e o coração discreto
tem medo de parecer “fora do bolo”.

A cidade cobra pureza em alto dolo,
mas negocia o desejo em modo secreto;
ela condena o corpo no panfleto,
e o vende à noite, em silêncio e rolo.

Eu te amo sem vitrine nem aplauso,
com o risco de ser mal interpretado;
amor não é uniforme, é incêndio manso.

E se a moral nos julga pelo mercado,
respondo: o gesto íntimo é o meu espaço —
onde o mundo não entra algemado.

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X – Pequeno Elogio da Contradição

“Somos a soma de acasos organizados.” (Inspirado em Wisława Szymborska – Polônia)

A vida prega peças com elegância:
num dia, lei; no outro, improviso;
o certo muda o nome no aviso,
e o erro usa gravata de importância.

O rico chama “sorte” à herança;
o pobre chama “crime” ao próprio piso;
e o meio termo, em seu sorriso,
vende prudência e compra ignorância.

Eu celebro o humano — esse intervalo
entre o que somos e o que prometemos;
a contradição é nosso espelho.

Se o mundo exige um rosto sem abalos,
prefiro o risco: ao menos assumimos
que até a verdade tem seu joelho.

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(Betto Gasparetto – vii-mmxviii)

A Sobriedade dos Silêncios

Posted in Sem categoria on 28 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Prefácio

A sociedade atual não sabe o que fazer com aquilo que não pode monetizar, exibir ou substituir rapidamente. Relações tornaram-se episódios. Vínculos são consumidos como experiências. A intensidade vale mais do que a permanência. O fim deve ser rápido, silencioso e limpo.

Mas nada que transforma é limpo.

Há uma pedagogia cruel no tempo presente: amar intensamente, descartar discretamente. Superar imediatamente. Não elaborar. Não olhar para trás. A memória é vista como atraso. A dor, como falha de adaptação.

Este conjunto confronta essa lógica sem gritar — mas sem ceder.

A lâmpada interior que permanece após o adeus não é sentimentalismo; é resistência. A terra lavrada pelo amor breve não é nostalgia; é maturação. A maré que recua não apaga o mar. A queda não é fim do percurso. O silêncio não é ausência de conteúdo — é reorganização profunda. Incorporei algumas expressões clássicas de grandes autores e, inspirando-me nelas, passei a integrá-las aos meus próprios escritos.

Vivemos sob o império da performance emocional. Demonstra-se, publica-se, anuncia-se. E quando termina, apaga-se. A superficialidade tornou-se estratégia de sobrevivência. Mas ela cobra preço: empobrece a experiência humana.

O amor que se transforma não desaparece. Ele altera a estrutura interior. Reescreve a forma de olhar. Muda o modo de existir. Isso não cabe na lógica da substituição.

A cultura da leveza emocional promete liberdade, mas produz fragilidade. Ensina a não se apegar, mas não ensina a amadurecer. Ensina a partir, mas não a compreender.

Estes sonetos recusam o espetáculo do sofrimento e a anestesia do esquecimento. Recusam o cinismo como mecanismo de defesa. Defendem algo mais difícil: permanecer consciente após a ruptura.

Porque o que nos desmonta também nos revela.

E, num mundo que prefere o brilho instantâneo à transformação silenciosa, sustentar a luz depois do desmonte é um gesto de força — não de ingenuidade.

Amar não é manter intacto. É permitir que algo nos modifique.

E essa modificação, quando assumida, é uma forma de resistência contra a superficialidade dominante.

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I – A Lâmpada Interior Após o Adeus

“O que fomos permanece no que somos.” (Inspirado em Fernando Pessoa – Portugal)

Na sala antiga, à luz já rarefeita,
teu adeus foi chama disciplinada;
mas a sombra, austera e bem traçada,
guardou no ar a forma imperfeita.

Não foi ruína a porta já desfeita,
nem o silêncio ausência condenada;
aprendi que a perda é estrada
onde a alma cresce satisfeita.

Há lâmpada interior que não se apaga,
vive além do gesto que termina,
arde serena quando o mundo indaga.

E assim, na noite que declina,
descubro que o amor não se embriaga:
torna-se luz que nos ilumina.

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II – A Terra Lavrada pelo Amor Breve

“O amor é semente que trabalha no escuro.” (Inspirado em Pablo Neruda – Chile)

No campo vasto sob o céu rubro,
teu riso foi colheita repentina;
mas o outono, em marcha cristalina,
levou-te além do sulco que descubro.

Ficou na terra um traço lúcido e puro,
não dor, mas força subterrina;
aprendi que a raiz se inclina
ao tempo, fecundando o futuro.

O breve não se perde no vento,
é grão que amadurece no íntimo,
longe do olhar e do lamento.

E assim, no gesto legítimo,
descubro que o amor é instrumento
de crescimento íntimo.

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III – A Maré Clara da Saudade Serena

“O mar guarda aquilo que parte.” (Inspirado em Sophia de Mello Breyner – Portugal)

Na praia ampla sob o céu marinho,
teu passo foi espuma na areia;
mas a maré, silenciosa e cheia,
recolheu-te ao seu destino.

Não restou dor em desatino,
nem sombra fria e alheia;
aprendi que a onda incendeia
o fundo oculto do caminho.

Saudade é mar que não se esgota,
não devora o que amou,
apenas muda-lhe a rota.

E assim, no fluxo que ficou,
descubro que a vida anota
o amor que o tempo moldou.

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IV – A Janela Aberta para o Invisível

“Toda perda é passagem.” (Inspirado em Rabindranath Tagore – Índia)

Na janela aberta do entardecer,
teu nome era brisa delicada;
mas o céu, em púrpura velada,
ensinou-me outro modo de viver.

Não foi o fim que pude ver,
mas ponte ampla e iluminada;
aprendi que a dor moderada
é limiar de renascer.

Há invisível além do que se rompe,
há claridade após o véu,
há força onde o peito não se corrompe.

E assim, sob novo céu,
descubro que o amor interrompe
apenas para crescer ao léu.

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V – O Incenso da Memória Viva

“A lembrança é perfume persistente.” (Inspirado em Charles Baudelaire – França)

Na nave antiga da catedral,
teu gesto foi incenso ascendente;
mas o ar, severo e transparente,
dissolveu-lhe a forma material.

Não cessou o aroma essencial,
nem a chama ardente;
aprendi que o amor latente
vive além do ritual.

Perfume não se prende à mão,
permanece na atmosfera
como secreta oração.

E assim, na bruma sincera,
descubro que o coração
guarda o que a ausência não supera.

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VI – O Caminho Interior Após a Queda

“A dor é uma escada.” (Inspirado em Hermann Hesse – Alemanha)

Na escarpa árida da decisão,
teu adeus foi passo abrupto;
mas o tempo, paciente e culto,
ergueu-me em nova direção.

Não permaneci no chão,
nem fiz do pranto culto;
aprendi que o amor adulto
nasce da superação.

Cada queda abre horizonte,
cada perda funda saber,
cada ruptura é ponte.

E assim, no florescer,
descubro que o amor confronte
apenas para crescer.

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VII – O Labirinto Claro da Memória

“Somos feitos de lembranças.” (Inspirado em Jorge Luis Borges – Argentina)

No corredor antigo do destino,
teu nome era eco reiterado;
mas o tempo, lúcido e alado,
tornou-o parte do caminho.

Não perdi o gesto peregrino,
nem o olhar já transformado;
aprendi que o passado
é labirinto cristalino.

Memória não é prisão severa,
mas mapa de íntimo traço
onde a alma persevera.

E assim, no espaço
descubro que o amor espera
além do próprio abraço.

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VIII – A Iluminação Após a Tempestade

“O mar ensina paciência.” (Inspirado em Derek Walcott – Santa Lúcia)

Na enseada turva sob o trovão,
teu adeus foi raio partido;
mas o céu, depois de vencido,
abriu-se em nova estação.

Não restou devastação,
nem medo enrijecido;
aprendi que o amor sofrido
é força de renovação.

Toda tempestade prepara
o azul que surge depois,
quando a dor se declara.

E assim, entre dois,
descubro que o amor ampara
mesmo quando se desfaz.

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IX – A Palavra Não Escrita

“O silêncio contém a verdade.” (Inspirado em Marguerite Duras – França)

No papel branco da despedida,
teu nome ficou suspenso;
mas o tempo, grave e intenso,
dispensou a palavra contida.

Não houve carta concluída,
nem discurso extenso;
aprendi que o amor é consenso
que vive além da fala proferida.

O não dito às vezes é inteiro,
mais fiel que jura sonora,
mais vasto que o roteiro.

E assim, na hora
descubro que o amor verdadeiro
fala quando se cala por fora.

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X – A Forma Exata do Amor que Permanece

“Make it new.” (Inspirado em Ezra Pound – Estados Unidos)

No verso antigo de nosso afeto,
teu gesto foi ritmo ardente;
mas o tempo, lúcido e consciente,
refez-lhe o compasso discreto.

Não destruiu o canto correto,
nem o tornou ausente;
aprendi que o amor consistente
renova-se em traço completo.

Não é fixidez que o sustenta,
mas forma sempre recriada
na alma que experimenta.

E assim, na jornada
descubro que o amor inventa
sua permanência renovada.

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(Betto Gasparetto – i-mmxv)

A Forma Serena da Renúncia

Posted in Sem categoria on 27 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Prefácio

Renunciar tornou-se palavra suspeita. A cultura contemporânea associa valor à permanência obstinada, à conquista, à retenção. Perder é visto como falha. Ceder é interpretado como fraqueza. Soltar parece derrota.

Mas há uma forma de renúncia que não nasce da incapacidade — nasce da lucidez.

Este conjunto não trata da fuga, nem da resignação passiva. Trata do momento em que o afeto amadurece o suficiente para reconhecer seus limites. A retirada serena não é indiferença; é responsabilidade. É compreender que insistir pode degradar o que antes foi verdadeiro.

Num tempo marcado pelo apego compulsivo — seja às pessoas, às narrativas ou às próprias versões de si — aprender a soltar exige força. A lógica do consumo afetivo nos ensina a substituir rapidamente ou a agarrar com ansiedade. Raramente ensina a elaborar.

A colunata onde o adeus é disciplinado, o inverno que guarda a brasa, a estrutura invisível que sustenta a casa, o vento que ensina o desapego, a pedra que se deixa polir, a maré que recua sem extinguir o mar — essas imagens falam de maturidade, não de perda dramática.

Renunciar com serenidade é reconhecer que o amor não precisa permanecer na forma inicial para continuar significativo. É preservar o respeito quando a paixão já não sustenta a promessa. É aceitar que a transformação não é traição, mas condição humana.

Vivemos sob pressão para manter aparências de intensidade ou blindagem emocional. Ou se dramatiza, ou se anestesia. A serenidade, porém, é mais exigente: ela exige reflexão, dignidade e autocontrole.

A forma serena da renúncia não elimina a dor. Ela a organiza. Não apaga a memória. Ela a integra. Não extingue o amor. Ela o transforma.

Se algo sustenta estas páginas, é a convicção de que ceder pode ser ato de coragem. E que o amor, quando verdadeiramente amadurecido, sabe partir sem se diminuir.

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I – A Força Serena do Amor que se Retira

“A serenidade é a mais alta forma de coragem.” (Inspirado em Sêneca – Roma Antiga)

Na colunata antiga, sob o vento,
teu adeus foi gesto disciplinado;
não houve grito ou rosto transtornado,
mas calma erguida em lúcido momento.

Retiraste o calor do juramento
como quem fecha um livro já lido;
aprendi que o amor amadurecido
não clama, apenas cede ao movimento.

Há força em quem se afasta sem ruína,
há grandeza no passo que se mede
pela verdade que nos ilumina.

E assim, na paz que o tempo concede,
descubro que a renúncia determina
o amor que cresce quando se despede.

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II – A Chama Contida no Frio da Ausência

“O frio também revela o fogo.” (Inspirado em Franz Kafka – República Tcheca)

Na rua branca sob inverno denso,
teu riso foi centelha improvável;
mas veio o gelo, austero e implacável,
selar o ar num silêncio imenso.

Ficou no peito um lume suspenso,
não visível, mas inevitável;
aprendi que o amor é instável,
mas deixa brasa no que penso.

O frio não extingue a essência,
apenas a guarda sob a neve
até que surja nova evidência.

E assim, na ausência breve,
descubro que a chama é permanência
mesmo quando o calor não se escreve.

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III – A Arquitetura Invisível do Vínculo

“O essencial sustenta-se no invisível.” (Inspirado em Antoine de Saint-Exupéry – França)

Na casa antiga de janelas altas,
teu abraço foi viga silenciosa;
mas a parede, fria e rigorosa,
abriu fissuras nas promessas faltas.

Não desabou a estrutura das altas
memórias em chama luminosa;
aprendi que a base é preciosa
mesmo quando as formas são mais faltas.

O vínculo não vive de aparência,
mas de alicerce oculto e persistente
que sustenta o peso da ausência.

E assim, na ruína aparente,
descubro que o amor é permanência
que cresce firme no invisível presente.

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IV – O Vento que Ensina o Desapego

“Tudo flui.” (Inspirado em Heráclito – Grécia Antiga)

No campo aberto sob céu profundo,
teu nome era brisa na colheita;
mas o vento, em curva imperfeita,
levou-o além do nosso mundo.

Não me aferrei ao gesto fecundo,
nem à promessa ainda estreita;
aprendi que a rota desfeita
é parte do ciclo rotundo.

O vento ensina a soltar o grão,
não por fraqueza ou descuido,
mas por fiel transformação.

E assim, no curso fluido,
descubro que amar é condição
de aceitar o tempo instituído.

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V – O Peso Leve da Saudade Clara

“A saudade é o amor que permanece.”(Inspirado em Mário Quintana – Brasil)

Na sala branca, à luz vespertina,
teu retrato era chama suspensa;
mas o tempo, em marcha imensa,
tornou distante a presença divina.

Ficou no ar uma paz cristalina,
não lamento ou dor intensa;
aprendi que a memória compensa
o que a ausência já não ilumina.

Há leveza no que foi amado,
há peso doce na recordação
do gesto antigo e delicado.

E assim, na pura emoção,
descubro que o amor guardado
é forma serena de permanência no coração.

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VI – A Pedra Polida do Sentimento Maduro

“A maturidade nasce do tempo.” (Inspirado em Rainer Maria Rilke – Áustria)

Na encosta árida do pensamento,
teu toque foi martelo suave;
mas o tempo, severo e grave,
lapidou-me o íntimo sentimento.

Não fui ruína ou desalento,
mas pedra firme e estável;
aprendi que o amor é maleável
quando aceita o próprio tempo.

A dor é cinzel silencioso
que afina a forma interior
até torná-la mais preciosa.

E assim, no gesto de esplendor,
descubro que amar é grandioso
quando se vive o seu valor.

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VII – O Luar que Permanece na Maré Baixa

“A maré recua, mas o mar permanece.” (Inspirado em Fernando Pessoa – Portugal)

Na praia ampla sob lua cheia,
teu beijo foi onda luminosa;
mas a maré, austera e silenciosa,
recuou na areia.

Não se extinguiu a chama alheia,
nem a promessa ardorosa;
aprendi que a perda cuidadosa
é fluxo que o mar semeia.

A maré baixa revela o fundo,
mostra o relevo da verdade
que sustenta o mundo.

E assim, na claridade,
descubro que amar é profundo
mesmo após a tempestade.

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VIII – A Última Janela do Crepúsculo

“Todo crepúsculo contém promessa.” (Inspirado em Octavio Paz – México)

Na janela antiga do entardecer,
teu adeus foi cor derradeira;
mas a sombra, austera e ligeira,
preparou nova forma de viver.

Não foi fim o que pude ver,
mas passagem verdadeira;
aprendi que a hora inteira
é ponte para renascer.

O crepúsculo não é ruína,
mas transição que esclarece
o que na noite se inclina.

E assim, quando a luz fenece,
descubro que o amor ilumina
mesmo quando desaparece.

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IX – A Voz Submersa da Esperança

“A esperança é a última forma de resistência.” (Inspirado em Albert Camus – França)

No porão escuro da memória,
teu nome era brasa abafada;
mas o tempo, em marcha compassada,
reacendeu a antiga história.

Não foi silêncio a trajetória,
nem ausência desolada;
aprendi que a chama guardada
retorna em forma de vitória.

A esperança é voz submersa,
não se extingue na corrente,
mas resiste na hora adversa.

E assim, no peito ardente,
descubro que amar é força diversa
que sustenta o ser vivente.

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X – A Constelação do Amor Superado

“As estrelas brilham após a noite.” (Inspirado em Dante Alighieri – Itália)

Na abóbada escura do destino,
teu olhar foi estrela cadente;
mas a noite, vasta e inclemente,
transformou o brilho peregrino.

Não se perdeu o lume divino,
apenas tornou-se diferente;
aprendi que o amor é semente
que floresce além do desatino.

Constelações surgem da queda,
formam no céu novo desenho
que a alma já não arreda.

E assim, no íntimo empenho,
descubro que a dor não veda:
revela o amor mais pleno.

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(Betto Gasparetto – iv-mmviii)