(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Prefácio
Há sociedades que não se sustentam pela violência explícita, mas pela encenação constante. Não é preciso proibir quando se pode distrair; não é necessário calar quando se pode confundir. O poder contemporâneo prefere o verniz ao confronto, o slogan à verdade, a aprovação pública ao debate real.
Estes sonetos atravessam esse território onde a aparência tornou-se método de governo. A praça exibe bustos de virtude enquanto negocia bastidores; o muro invisível separa mais do que qualquer concreto; o ouro polido recebe reverência enquanto a fome é traduzida em estatística aceitável. Não se trata apenas de política institucional — trata-se de um hábito cultural que naturaliza a encenação.
Arendt observou que o mal pode operar com normalidade burocrática. Orwell alertou para a manipulação da linguagem como ferramenta de domínio. Galeano mostrou como o mercado aprende a esquecer aquilo que o constrange. Aqui, essas intuições reaparecem não como citação erudita, mas como inquietação viva.
O homem ajustado, o eleitor seduzido, o consumidor distraído, o poeta que insiste em nomear — todos participam da mesma arena. O conflito não é apenas externo: é íntimo. Cada máscara retirada exige responsabilidade.
Se há algo que une estes poemas, é a recusa em aceitar o espetáculo como destino inevitável. A palavra surge não como ornamento, mas como instrumento de desvelamento. Nomear é retirar o disfarce. Recordar é contrariar o esquecimento conveniente. Perguntar é interromper o roteiro.
Não há ingenuidade aqui. Há consciência de que a encenação é sedutora, confortável e lucrativa. Mas há também a certeza de que nenhuma máscara é eterna.
E enquanto houver quem escreva contra o disfarce, a república das aparências não será absoluta.
============*==*==*============
I – República das Máscaras
“O poder prefere a aparência à verdade.” (Inspirado em Hannah Arendt – Alemanha/EUA)
Na praça erguem bustos de virtude,
polidos rostos sem fissura ou dor;
mas sob o bronze vive o rumor
de pactos feitos em quietude.
Chamam “ordem” à velha servitude,
“bem comum” ao lucro maior;
e o cidadão, pequeno ator,
aplaude a própria inquietude.
Máscaras reinam na claridade,
cada qual vende a sua versão
como se fosse eternidade.
Eu rasgo o pano da encenação:
prefiro a frágil sinceridade
à glória oca da aprovação.
============*==*==*============
II – Elegia ao Muro Invisível
“Minha identidade é o que me negam.” (Inspirado em Mahmoud Darwish – Palestina)
Entre ruas sem nome e sem retrato,
ergue-se um muro de opinião;
não é de pedra, mas de negação,
de olhares que recusam contato.
Chamam “medo” ao preconceito exato,
“prudência” à segregação;
mas cada rosto pede chão
e cada passo exige trato.
O muro cai quando alguém escuta,
quando o nome encontra o seu lugar,
quando a história não é disputada.
Se o mundo insiste na conduta
de excluir para governar,
eu ergo o verso como enxada.
============*==*==*============
III – Sermão Contra o Ouro Polido
“O colonialismo começa na mente.” (Inspirado em Aimé Césaire – Martinica/França)
No templo erguido ao lucro e à taxa,
pregam fé no mercado invisível;
a fome é dado estatístico plausível,
e a dívida vira marcha.
Chamam “civilização” à farsa,
“progresso” ao grilhão previsível;
mas o povo, em murmúrio audível,
prepara a ruptura que não disfarça.
Não é sagrado o ouro polido,
nem eterno o trono que o sustém;
a história cobra o que foi omitido.
E quando o grito disser “amém”
não será hino do oprimido,
mas juízo contra o desdém.
============*==*==*============
IV – O Homem e o Absurdo Eleitoral
“A revolta dá dignidade.” (Inspirado em Albert Camus – França/Argélia)
Prometem céu em urna lacrada,
distribuem esperança impressa;
mas a palavra muda depressa
quando a cadeira é conquistada.
Chamam “povo” à massa cansada,
“mudança” à mesma promessa;
a revolta, se se expressa,
é tida por desvairada.
Mas há dignidade na recusa,
no “não” que rompe o protocolo,
na crítica que não se desculpa.
Se o voto vira dolo,
a consciência recusa
ser cúmplice do rolo.
============*==*==*============
V – Litania para um Nome Esquecido
“Se você não contar sua história, outro contará por você.”(Inspirado em Toni Morrison – EUA)
No bairro antigo, sob luz incerta,
um nome cai no chão da memória;
ninguém registra a breve história,
ninguém reabre a porta aberta.
Chamam “caso” à vida deserta,
“trágico” ao fato sem glória;
mas a palavra, feita vitória,
ressurge quando alguém desperta.
Escrevo o nome em pedra clara,
não para culto ou altar,
mas para que a cidade o encare.
Se o mundo insiste em apagar,
o poema insiste e repara:
lembrar é resistir ao calar.
============*==*==*============
VI – Confissão do Homem Ajustado
“A má-fé é fugir da liberdade.”(Inspirado em Jean-Paul Sartre – França)
Disse que não era comigo,
que o mundo gira e eu apenas sigo;
mas no espelho, rosto antigo,
vi meu silêncio como abrigo.
Chamei prudência ao medo amigo,
chamei “real” ao gesto ambíguo;
mas a consciência — aço antigo —
cortou-me o pacto vago e frio.
Ajustar-se é fácil conforto,
mas custa a espinha do querer;
cala-se a alma no porto.
Hoje escolho responder:
prefiro o risco torto
à paz de não me mover.
============*==*==*============
VII – Crônica do Mundo que Se Vende
“O sistema é especialista em esquecer.” (Inspirado em Eduardo Galeano – Uruguai)
Vendem a chuva em garrafa fina,
o ar em lata, o sonho em série;
a infância vira estatística etérea,
e a guerra rende oficina.
Chamam “negócio” à fome menina,
“dado” ao pranto que fere;
mas a memória, quando interfere,
desmonta a farsa que domina.
Quem compra o mundo perde o chão,
quem vende a alma perde o nome;
há preço alto na transação.
E quando o lucro consome,
descobre-se tarde a lição:
nem tudo se compra ou se some.
============*==*==*============
VIII – A Casa que o Corpo Habita
“A identidade é construção e combate.” (Inspirado em Sylvia Plath – EUA)
No quarto estreito da própria pele,
escuto vozes que me definem;
mas minhas veias se autodeterminam
contra o rótulo que me repele.
Chamam “desvio” ao que não convém,
“normal” ao molde repetido;
mas meu corpo, lúcido e erguido,
recusa o padrão que o contém.
Habito a casa que me invento,
não a que me deram pronta;
sou gesto, falha e movimento.
Se a norma me afronta,
respondo com pensamento:
ser é luta que não desmonta.
============*==*==*============
IX – Salmo para um Século Cansado
“O poeta é a consciência inquieta.” (Inspirado em Czesław Miłosz – Polônia)
Século exausto de brilho falso,
de guerras breves e longas telas;
a verdade, entre janelas,
perde o lugar no palco.
Chamam “avanço” ao passo em falso,
“rede” às novas correntes paralelas;
mas há ainda vozes singelas
que recusam o gesto encalço.
O poeta não é santo ou herói,
é aquele que nomeia a dor
quando o discurso a corrói.
Se o tempo exige temor,
ele escreve e constrói
uma ética em fervor.
============*==*==*============
X – A Palavra Contra o Mundo
“A leveza é uma forma de precisão.” (Inspirado em Italo Calvino – Itália)
Quando o ruído cobre a cidade,
resta a palavra como lâmina;
não para ferir, mas para a trama
de outra possível claridade.
Chamam “utopia” à liberdade,
“ingênuo” ao gesto que reclama;
mas cada verso que se inflama
abre fissura na opacidade.
Não é espada, é semente;
não é grito, é consciência;
não é fuga, é presente.
Se o mundo insiste na aparência,
a poesia, persistente,
ergue o ser contra a indiferença.
============*==*==*============
(Betto Gasparetto – ii-mmxiv)



