Doar-se, Verbo Permanente de um Querer

Posted in Sem categoria on 6 de novembro de 2026 by Prof Gasparetto

Crônica romântica em seis partes — Entre a delicadeza dos encontros, a coragem da entrega e a paixão que floresce mesmo sob o rigor do inverno.

(Betto Gasparetto)

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I — QUANDO O INVERNO NOS APRESENTOU À PRIMAVERA

Há encontros que parecem nascer de uma distração do destino. Acontecem quando menos os esperamos, em lugares onde jamais procuraríamos a felicidade, e deixam em nossa existência uma marca tão profunda que todos os acontecimentos anteriores passam a parecer uma longa preparação para aquele instante. Talvez o amor seja justamente isso: a inesperada descoberta de que alguém, até então desconhecido, pode tornar-se a mais familiar de todas as presenças.

Foi numa tarde de inverno, entre as montanhas dos Alpes italianos, que te encontrei. A neve caía com a delicadeza de quem receia perturbar o silêncio, cobrindo os telhados dos chalés, as escadarias de pedra e os pinheiros que se erguiam pelas encostas. Ao longe, as montanhas pareciam sustentar o firmamento, enquanto o céu, tingido de rosa e violeta, anunciava a chegada da noite.

Eu caminhava pela varanda de uma antiga hospedaria, procurando na paisagem alguma resposta para inquietações que não sabia nomear. Havia viajado para afastar-me do ruído das cidades e da sucessão de compromissos que, embora necessários, pouco acrescentavam à minha felicidade. Não esperava encontrar companhia. Menos ainda alguém que viesse modificar, com tamanha naturalidade, o curso de meus pensamentos.

Estavas junto à balaustrada, contemplando o vale. Vestias um elegante casaco de lã clara, luvas de couro e um pequeno chapéu que emoldurava teu rosto. Algumas mechas de teus cabelos escapavam ao cuidado do penteado, movimentadas pelo vento frio. Teus olhos acompanhavam os flocos de neve, e havia em teu sorriso uma serenidade que parecia desconhecer as asperezas do mundo.

Aproximei-me para admirar a paisagem. Tu percebeste minha presença e comentaste que as montanhas, quando cobertas de neve, pareciam guardar segredos que o verão não conseguia esconder.

Respondi que talvez o inverno não ocultasse os segredos, mas nos ensinasse a contemplá-los.

Sorriste.

E naquele sorriso aconteceu algo que nenhuma explicação posterior conseguiu diminuir: senti que o frio, até então tão rigoroso, perdera subitamente sua autoridade sobre mim.

Conversamos sem pressa. Falamos das montanhas, das viagens que desejávamos realizar, dos livros que nos haviam acompanhado desde a juventude e da estranha facilidade com que algumas pessoas conseguem transformar uma conversa casual numa lembrança inesquecível.

Quando a noite se aproximou, ofereci-me para acompanhar-te até o salão da hospedaria. Aceitaste meu braço com uma gentileza que me pareceu pertencer a outro século.

Descemos juntos a escadaria iluminada por pequenos lampiões. E, embora nada houvesse sido prometido, compreendi que aquela tarde já não pertencia apenas à memória de uma viagem.

Pertencia ao início de uma história.

II — A DELICADEZA DE UM QUERER QUE NÃO EXIGE

Nos dias seguintes, descobri que tua beleza não se limitava à harmonia de teu rosto ou à graça de teus movimentos. Havia em ti uma forma rara de atenção, dessas que não procuram impressionar, mas compreender. Escutavas as pessoas com interesse verdadeiro, tratavas os desconhecidos com delicadeza e encontravas motivos para sorrir mesmo quando as circunstâncias pouco favoreciam a alegria.

Passeávamos pelas ruas estreitas da pequena vila, visitávamos livrarias, contemplávamos vitrines antigas e nos demorávamos diante das paisagens que se abriam entre os telhados cobertos de neve. Algumas tardes terminavam junto à lareira, com duas xícaras de chocolate quente e uma conversa que nenhum de nós desejava encerrar.

Certa vez, perguntaste-me o que eu considerava indispensável para que um amor permanecesse.

Pensei em responder com as palavras que tantas vezes encontrara nos livros: fidelidade, confiança, paixão, esperança. Todas me pareceram verdadeiras, mas incompletas.

Disse-te, então, que talvez amar fosse aprender a oferecer sem transformar cada gesto numa dívida.

Tu me observaste com curiosidade.

Expliquei que há pessoas capazes de grandes demonstrações de afeto, mas incapazes de respeitar a liberdade de quem amam. Oferecem presentes, fazem promessas, proclamam sentimentos extraordinários e, depois, exigem que tudo lhes seja devolvido na mesma medida. Confundem a generosidade com uma espécie de contrato, como se o coração humano pudesse ser governado pelas regras do comércio.

Tu permaneceste em silêncio por alguns instantes.

Depois disseste que a verdadeira entrega não deveria diminuir quem oferece nem aprisionar quem recebe.

Aquelas palavras acompanharam-me durante toda a noite.

Compreendi que doar-se não significava renunciar à própria dignidade, abandonar os sonhos pessoais ou aceitar qualquer sofrimento em nome do amor. Significava compartilhar o melhor de si sem exigir que o outro deixasse de ser quem era.

Era oferecer companhia sem sufocar, cuidado sem domínio, ternura sem cobrança e presença sem transformar a liberdade alheia numa ameaça.

Na manhã seguinte, encontrei-te novamente na varanda. A neve havia cessado, e uma claridade suave iluminava as montanhas. Aproximei-me, tomei tua mão e confessei que desejava conhecer não apenas teus dias felizes, mas também aqueles em que a vida te parecesse difícil.

Não prometi resolver todas as tuas inquietações.

Prometi escutá-las.

E quando repousaste delicadamente a cabeça sobre meu ombro, percebi que algumas declarações de amor não necessitam da eloquência dos poetas.

Precisam apenas da sinceridade de quem está disposto a permanecer.

III — ENTRE O DESEJO E A CORAGEM DE ENTREGAR-SE

A paixão chegou sem anunciar sua presença. Não surgiu como uma tempestade destinada a destruir nossa serenidade, mas como uma chama que, alimentada por pequenos gestos, adquiriu intensidade suficiente para iluminar os lugares mais reservados de nossas almas.

Recordo uma noite em que regressávamos de um jantar numa pequena hospedaria das montanhas. A neve principiara a cair novamente, e as ruas estavam quase desertas. Os lampiões lançavam círculos dourados sobre o caminho, enquanto nossas pegadas desenhavam uma breve história na superfície branca.

Caminhávamos próximos, protegidos pelo mesmo guarda-chuva, embora a neve fosse tão delicada que dificilmente nos causaria algum incômodo. Talvez desejássemos apenas encontrar uma justificativa para permanecer abraçados.

Ao chegarmos à varanda, detiveste-te para contemplar o céu. Algumas estrelas surgiam entre as nuvens, e o vale repousava sob uma quietude extraordinária.

Perguntaste-me se eu acreditava que duas pessoas poderiam continuar apaixonadas depois de muitos anos.

Respondi que não sabia quanto tempo durava o encantamento dos primeiros encontros, mas acreditava que a paixão poderia encontrar novas formas de existir quando acompanhada pela admiração, pela confiança e pelo desejo sincero de fazer bem à pessoa amada.

Voltaste o rosto para mim.

Teus olhos tinham aquela luminosidade particular que o inverno parecia tornar ainda mais delicada. Uma pequena mecha de cabelo repousava sobre tua face. Afastei-a suavemente, e meus dedos permaneceram por um instante junto à tua pele.

Não houve pressa.

Aproximei-me apenas o suficiente para perceber que também desejavas aquele encontro.

Então nossos lábios se tocaram.

O beijo foi sereno no princípio, quase tímido, como se procurássemos compreender a profundidade do sentimento que nos aproximava. Depois adquiriu a intensidade própria de duas pessoas que já não precisavam esconder a felicidade de estarem juntas.

Envolveste-me com os braços, e eu te abracei com uma ternura que não diminuía o ardor daquele instante. A neve continuava a cair, os lampiões permaneciam acesos, e o mundo prosseguia em sua marcha habitual.

Entretanto, para nós, tudo parecia suspenso.

Quando nossos rostos se afastaram, sorriste e perguntaste se eu ainda sentia frio.

Respondi que o inverno continuava nas montanhas, mas já não encontrava lugar em meu coração.

Riste daquela declaração, talvez excessivamente poética, e me beijaste outra vez.

Foi então que descobri que a paixão mais profunda não nasce da necessidade de possuir alguém. Nasce da felicidade de ser escolhido livremente, sem imposições, sem artifícios e sem receio de demonstrar aquilo que sentimos.

Naquela noite, ao despedirmo-nos, compreendi que desejava mais do que repetir nossos encontros.

Desejava participar de tua vida.

Não como quem reclama um direito, mas como quem recebe um privilégio.

IV — AS SOMBRAS QUE TAMBÉM HABITAM O AMOR

Seria agradável afirmar que, depois daquela noite, todos os nossos dias transcorreram sem inquietações. Contudo, semelhante relato pertenceria mais ao território das fantasias do que à verdadeira experiência humana.

O amor, mesmo quando sincero, não nos torna imunes às imperfeições. Continuamos sujeitos ao orgulho, ao cansaço, às palavras precipitadas e às expectativas que nem sempre sabemos comunicar.

Vieram os meses, as viagens, os compromissos e as dificuldades próprias de duas existências que procuravam construir um caminho comum. Descobrimos que não bastava desejar a companhia um do outro. Era necessário aprender a conviver com nossas diferenças, respeitar os silêncios e reconhecer que nem toda discordância representava uma ameaça ao sentimento.

Houve uma tarde em que discutimos por uma razão tão pequena que hoje mal consigo recordá-la. Lembro-me apenas de que nossas palavras, inicialmente prudentes, adquiriram uma aspereza que nenhum de nós desejara.

Tu te afastaste para a varanda.

Eu permaneci no salão, convencido de que minhas razões eram suficientes para justificar o silêncio.

Durante alguns minutos, contemplei o fogo da lareira, esperando que fosses a primeira a regressar. Parecia-me que ceder significaria reconhecer uma derrota.

Então recordei nossas conversas sobre a generosidade.

Que valor possuíam minhas declarações de amor se, diante de uma dificuldade, eu preferia preservar o orgulho a procurar tua compreensão?

Aproximei-me da porta envidraçada.

Estavas junto à balaustrada, observando a neve que começava a acumular-se sobre as pedras. Teus ombros permaneciam imóveis, mas havia em tua expressão uma tristeza que me causou mais sofrimento do que qualquer palavra pronunciada durante nossa discussão.

Cheguei perto de ti.

Não procurei justificar-me imediatamente. Pedi desculpas pela dureza de minha voz e reconheci que, embora ainda pudéssemos discordar, nenhuma divergência merecia destruir a delicadeza com que sempre nos tratáramos.

Tu me olhaste demoradamente.

Depois confessaste que também havias permitido que a irritação ultrapassasse os limites do respeito.

Abraçamo-nos.

Não porque todos os problemas estivessem resolvidos, mas porque havíamos decidido enfrentá-los sem transformar um ao outro em adversário.

Naquela tarde, compreendi que doar-se também significa reconhecer os próprios erros, oferecer uma palavra conciliadora e aceitar que a razão, quando desprovida de ternura, pode converter-se numa vitória profundamente solitária.

O amor não exige que abandonemos nossas convicções.

Exige que jamais esqueçamos a humanidade de quem está diante de nós.

V — O VERBO QUE SE CONJUGA EM TODOS OS TEMPOS

As estações sucederam-se, e a pequena vila alpina tornou-se um lugar ao qual regressávamos sempre que desejávamos reencontrar a serenidade de nossos primeiros dias.

No verão, as montanhas abandonavam parte de sua brancura e revelavam encostas floridas. No outono, as árvores adquiriam tonalidades de cobre e ouro, enquanto o vento espalhava folhas pelos caminhos de pedra. No inverno, a neve recuperava sua soberania, cobrindo novamente os telhados e os jardins.

Cada estação parecia oferecer uma nova interpretação de nossa história.

Descobrimos que amar não consistia apenas em celebrar aniversários, oferecer flores ou preparar viagens memoráveis. Havia uma grandeza silenciosa nos gestos cotidianos: preparar uma xícara de chá quando o outro estava cansado, escutar uma preocupação sem interromper, respeitar um momento de recolhimento ou encontrar tempo para um abraço depois de um dia difícil.

A felicidade deixara de depender exclusivamente dos acontecimentos extraordinários.

Passara a habitar os pequenos cuidados.

Certa manhã, enquanto contemplávamos as montanhas pela janela, perguntaste-me se eu ainda acreditava naquela definição de amor que te oferecera durante nossos primeiros encontros.

Sorri.

Respondi que agora compreendia melhor sua profundidade.

Doar-se, disse-te, não é um gesto que se realiza uma única vez, como quem entrega um presente e considera encerrada sua obrigação. É um verbo que precisa ser conjugado continuamente, nas diferentes circunstâncias da existência.

Doamo-nos quando partilhamos uma alegria sem inveja, quando acolhemos uma tristeza sem impaciência e quando oferecemos nosso tempo sem fazer da generosidade um espetáculo.

Doamo-nos também quando permitimos que a pessoa amada cresça, descubra novos interesses e conserve sua individualidade. Pois nenhum amor merece ser chamado de nobre se exige, como prova de fidelidade, o empobrecimento da vida de quem o recebe.

Tu me escutavas em silêncio.

Depois aproximaste tua mão da minha e disseste que, se o amor fosse realmente um verbo, desejavas conjugá-lo comigo em todos os tempos que a vida nos concedesse.

Não soube responder imediatamente.

Havia naquela frase uma beleza que nenhuma ornamentação literária poderia aperfeiçoar.

Abracei-te.

E compreendi que o amor não precisava ser infinito em duração para possuir uma grandeza extraordinária. Bastava que fosse verdadeiro enquanto vivido, generoso em suas escolhas e suficientemente corajoso para renovar-se diante das mudanças inevitáveis.

A paixão que outrora nos aproximara continuava presente.

Mas agora possuía raízes.

VI — ONDE DOIS CORAÇÕES APRENDEM A PERMANECER

Regressamos àquela varanda numa tarde em que o inverno parecia haver reservado sua mais bela paisagem para nossa contemplação.

As montanhas erguiam-se majestosas sob um céu rosado, e a neve caía suavemente sobre os telhados da vila. Os lampiões começavam a acender-se ao longo das escadarias, espalhando reflexos dourados sobre as pedras. Ao longe, as janelas dos chalés iluminavam-se uma após outra, como pequenas promessas de abrigo contra o frio.

Estavas junto à balaustrada, exatamente como no dia em que nos conhecemos.

Vestias um casaco claro, e teus cabelos escapavam delicadamente sob o chapéu. Havia em teu rosto a mesma serenidade que me encantara naquela primeira tarde, embora agora eu reconhecesse também as experiências, as alegrias e as dificuldades que havíamos compartilhado.

Aproximei-me sem anunciar minha presença.

Tu percebeste meus passos e sorriste antes mesmo de te voltares.

Envolvi-te com os braços, e permanecemos contemplando o vale. O silêncio entre nós já não possuía a timidez dos primeiros encontros. Era um silêncio habitado por lembranças, confidências e pela tranquilidade de duas pessoas que haviam aprendido a reconhecer-se mesmo quando nada tinham a dizer.

Perguntaste-me se eu ainda me recordava de nossa primeira conversa.

Respondi que jamais esquecera tua observação sobre os segredos que as montanhas guardavam durante o inverno.

Riste.

Depois perguntaste se eu finalmente descobrira algum deles.

Contemplei a paisagem por alguns instantes.

Disse-te que sim.

Descobrira que a neve, embora parecesse transformar inteiramente as montanhas, não modificava sua essência. Sob o manto branco permaneciam as mesmas rochas, os mesmos caminhos e as raízes das árvores que voltariam a florescer quando chegasse a primavera.

Assim também acontecia com o amor.

As circunstâncias podiam alterar sua aparência. Haveria dias de entusiasmo e outros de recolhimento, momentos de paixão arrebatadora e períodos em que a ternura precisaria manifestar-se por meio da paciência. Mas, se conservássemos o respeito, a confiança e a disposição de cuidar um do outro, o sentimento encontraria maneiras de atravessar suas próprias estações.

Voltaste o rosto para mim.

Teus olhos refletiam a última claridade do entardecer.

Perguntaste, então, o que eu desejava oferecer-te depois de tudo quanto havíamos vivido.

Pensei nas flores que já te entregara, nas cartas que escrevera, nos lugares que conhecêramos e nas promessas que procuráramos cumprir. Nenhuma dessas lembranças me pareceu suficiente para responder.

Tomei tuas mãos entre as minhas.

Disse-te que desejava oferecer algo menos vistoso, porém mais difícil de preservar: minha disposição de continuar aprendendo a amar-te.

Não prometi compreender imediatamente todos os teus silêncios, mas comprometi-me a escutá-los com respeito. Não assegurei que jamais cometeria erros, mas reconheci a responsabilidade de repará-los. Tampouco te ofereci uma existência livre de dificuldades, pois semelhante promessa seria uma injustiça contra a própria verdade.

Ofereci-te minha companhia, minha lealdade, minha ternura e a liberdade de continuares sendo a mulher por quem me apaixonara.

Tu apertaste suavemente minhas mãos.

Depois aproximaste-te e me beijaste com aquela delicadeza que, desde nosso primeiro encontro, nunca deixara de surpreender-me.

O beijo prolongou-se enquanto a neve caía ao nosso redor. Não havia nele o deslumbramento incerto de duas pessoas que acabavam de se conhecer, mas a intensidade serena de quem compreende o valor daquilo que construiu.

Quando nossos lábios se afastaram, permaneceste abraçada a mim.

A noite descia sobre os Alpes, e as primeiras estrelas surgiam acima das montanhas.

Naquele instante, compreendi que nenhum palácio, nenhuma viagem e nenhuma conquista poderia oferecer-me uma felicidade superior àquela presença livremente compartilhada.

O mundo continuaria a exigir de nós coragem, trabalho, renúncias e escolhas. Haveria mudanças que não poderíamos impedir e acontecimentos que escapariam à nossa vontade. Entretanto, enquanto nos fosse possível caminhar juntos, desejaríamos fazê-lo com a dignidade de quem reconhece no amor não um direito adquirido, mas uma responsabilidade escolhida.

Acariciei teu rosto e confessei que, se algum dia me perguntassem qual fora a maior descoberta de minha existência, não mencionaria as cidades visitadas, os conhecimentos adquiridos ou as realizações que o tempo pudesse registrar.

Diria que descobrira, ao teu lado, a diferença entre desejar alguém e verdadeiramente amar.

Desejar é aproximar-se daquilo que nos encanta. Amar é permanecer atento àquilo que faz bem ao outro.

A paixão pode nascer de um olhar, de um sorriso ou de um beijo inesperado. A entrega, porém, revela-se na constância dos gestos, na generosidade das escolhas e na coragem de continuar oferecendo ternura quando o encantamento inicial já se transformou em conhecimento profundo.

Tu repousaste a cabeça sobre meu peito.

E eu, contemplando a neve que lentamente cobria a varanda, compreendi que a mais bela declaração de amor talvez não fosse aquela que prometesse a eternidade, mas a que encontrasse sentido em cada novo amanhecer.

Porque amar não é apenas pronunciar palavras que emocionam. É conferir-lhes existência por meio das atitudes.

Doar-se é verbo permanente de um querer porque não se esgota na primeira promessa, não se encerra no primeiro beijo e não depende da perfeição dos dias. Renova-se sempre que dois corações, livres para escolher seus caminhos, encontram na felicidade compartilhada uma razão para continuar juntos.

E naquela noite, enquanto as montanhas desapareciam sob o manto azul do firmamento, abracei-te uma vez mais.

Não para impedir que o tempo passasse.

Mas para agradecer-lhe a extraordinária oportunidade de atravessá-lo contigo.

(Betto Gasparetto – 2019)

Perfumes, Palavras e Paixões

Posted in Sem categoria on 5 de novembro de 2026 by Prof Gasparetto

Crônica romântica — Entre a sedução dos sentidos, a eloquência do silêncio e a eternidade de um beijo.

(Betto Gasparetto)

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I — O PERFUME DE UM AMOR QUE DESAFIOU A ETERNIDADE

Há perfumes que pertencem às flores, outros às estações, e alguns, tão raros quanto os encontros que transformam uma existência, parecem nascer da própria presença de quem amamos. Não se deixam aprisionar em frascos de cristal, tampouco obedecem às leis da memória. Permanecem suspensos entre aquilo que vivemos e o que desejamos viver novamente, como se a alma, incapaz de conservar o tempo, houvesse aprendido a guardar suas fragrâncias.

Foi numa tarde veneziana, quando o sol principiava a despedir-se das águas do Adriático, que compreendi a misteriosa soberania de um perfume. Não vinha das rosas dispostas em vasos de porcelana, nem dos jardins que ornamentavam os palácios. Era teu. Uma delicada combinação de jasmim, âmbar e flores brancas que, sem pedir licença, atravessou minha prudência e despertou sentimentos cuja existência eu desconhecia.

Encontramo-nos no salão de um antigo palácio, entre colunas de mármore, pinturas que celebravam glórias esquecidas e lustres de cristal que multiplicavam a claridade do entardecer. Vestias um magnífico traje azul, bordado com a paciência de mãos que pareciam compreender a beleza. Teus cabelos desciam em suaves ondulações, e havia em teus olhos uma luminosidade que nenhuma joia conseguiria imitar.

II — O PERFUME DE UM ENCONTRO QUE O DESTINO GUARDAVA

Não recordo quem primeiro pronunciou uma palavra. Talvez porque os acontecimentos decisivos raramente respeitem a ordem que a razão gostaria de lhes impor. Lembro-me, entretanto, de teu sorriso, de minha súbita incapacidade de sustentar uma conversa trivial e da estranha impressão de que, embora nos víssemos pela primeira vez, alguma parte de mim já te aguardava havia muitos anos.

Perguntaste se eu admirava as pinturas daquele salão. Respondi que sim, mas confessei, com uma sinceridade que me surpreendeu, que desde tua chegada deixara de observá-las. Riste delicadamente, sem a vaidade de quem se sabe admirada, mas com a graça de quem reconhece um sentimento antes mesmo que ele encontre palavras.

Caminhamos entre as galerias. Conversamos sobre música, poesia, viagens e sobre a inclinação humana de atribuir ao destino aquilo que talvez seja apenas a coragem de aproveitar um encontro. Tu defendias que o amor necessitava de liberdade para florescer. Eu sustentava que a liberdade, sem alguém com quem partilhar suas descobertas, poderia converter-se numa forma requintada de solidão.

Discordávamos com ternura. E cada divergência, longe de nos afastar, oferecia uma nova oportunidade de prolongar nossa companhia.

III — QUANDO OS OLHARES DISSERAM O QUE OS LÁBIOS CALAVAM

Quando chegamos à escadaria principal, a tarde havia adquirido aquela claridade dourada que antecede o crepúsculo. Pelas grandes janelas, as gôndolas atravessavam silenciosamente o canal, enquanto o reflexo dos palácios tremulava sobre as águas. O mundo parecia ocupado em preservar sua própria beleza, indiferente ao fato de que dois corações principiavam uma história.

Foi então que me ofereceste a mão.

O gesto era simples, quase cerimonial. Contudo, quando teus dedos tocaram os meus, senti que todas as palavras pronunciadas naquela tarde haviam sido apenas uma preparação para aquele instante. A proximidade de tua pele, a delicadeza de teu perfume e a serenidade de teu olhar despertaram em mim uma paixão que não se parecia com os entusiasmos passageiros da juventude.

Não era o desejo de possuir tua beleza, mas a vontade de conhecer tudo quanto nela permanecia invisível: teus receios, tuas esperanças, as lembranças que te faziam sorrir e aquelas que, por pudor, preferias conservar em silêncio.

IV — ENTRE COLUNAS DE MÁRMORE, NASCEU A PAIXÃO

Aproximei-me devagar. Não desejava precipitar um gesto que merecia nascer de nossa vontade comum. Tu permaneceste diante de mim, com uma das mãos repousando sobre meu peito, enquanto a outra se conservava entre meus dedos. Nossos rostos se aproximaram, e por um breve momento tive a impressão de ouvir o próprio coração disputando espaço com a música distante.

Beijei-te.

Não houve naquele beijo a impaciência dos que confundem paixão com conquista. Houve, antes, a entrega de duas pessoas que reconheciam, uma na outra, a possibilidade de uma felicidade até então apenas imaginada. Teus lábios encontraram os meus com uma ternura que não diminuía o ardor, mas lhe conferia uma profundidade extraordinária.

E quando nos afastamos ligeiramente, permanecemos abraçados, como se a distância de alguns centímetros já fosse excessiva para quem acabara de descobrir a alegria de pertencer, por escolha, ao mesmo instante.

V — O PRIMEIRO BEIJO E A ETERNIDADE DE UM INSTANTE

Recordo que me perguntaste, com um sorriso quase imperceptível, se eu sempre encontrava tantas palavras para falar de amor.

Respondi que, antes de conhecer-te, acreditava possuir alguma habilidade com elas. Agora, porém, todas me pareciam insuficientes.

Tu sorriste novamente e aproximaste os lábios de meu ouvido.

Disseste que talvez o amor começasse justamente onde a linguagem reconhecia seus limites.

Nunca esqueci essa observação.

Com o passar dos meses, descobri que tua presença não se restringia à beleza dos encontros. Havia paixão nas manhãs em que partilhávamos o café, nos passeios sem destino, nas cartas que escrevíamos durante breves ausências e até nas discussões em que aprendíamos a distinguir a firmeza de uma convicção da vaidade de querer vencer.

Amar-te não significava viver continuamente sob o encantamento de um primeiro beijo. Significava descobrir, em cada novo dia, razões diferentes para desejar tua companhia. Era admirar tua inteligência quando defendias uma ideia, reconhecer tua sensibilidade diante da dor alheia, respeitar os momentos em que preferias o silêncio e compreender que a intimidade mais preciosa não nasce da ausência de mistérios, mas da confiança necessária para revelá-los.

VI — A DOCE ALQUIMIA DOS DESEJOS E DAS CONFISSÕES

Houve noites em que dançamos até que os músicos encerrassem suas partituras. Noutras, permanecemos junto à janela, contemplando a chuva sobre o canal, enquanto conversávamos sobre os anos que ainda desejávamos compartilhar. Algumas vezes, bastava-nos a leitura de um livro, a música de um piano ou a presença tranquila de nossas mãos entrelaçadas.

E, no entanto, a paixão não envelhecia.

Transformava-se.

O deslumbramento inicial adquiria a profundidade do conhecimento; a ansiedade dos encontros convertia-se na alegria do regresso; e o desejo, longe de desaparecer sob o peso da familiaridade, encontrava novas formas de manifestar-se na delicadeza de um abraço, na cumplicidade de um olhar ou na espontaneidade de um beijo inesperado.

Certa noite, regressamos ao palácio onde nos conhecêramos. O salão estava iluminado por centenas de pequenas luzes, e os mesmos lustres de cristal resplandeciam sobre a escadaria. As flores haviam sido renovadas, as pinturas permaneciam em seus lugares, e as águas continuavam a refletir a arquitetura veneziana.

Tudo parecia semelhante àquela primeira tarde.

Tudo, exceto nós.

VII — QUANDO A PAIXÃO APRENDEU A CHAMAR-SE AMOR

Já não éramos dois desconhecidos encantados pela promessa de um sentimento. Conhecíamos nossas imperfeições, havíamos atravessado inquietações e aprendido que nenhuma união se preserva apenas pela intensidade de seus momentos felizes. Era necessário escolher, reiteradamente, a gentileza quando o orgulho nos convidava à aspereza, a escuta quando desejávamos responder e a reconciliação quando seria mais fácil conservar o ressentimento.

Subimos lentamente os degraus de mármore.

Tu vestias novamente o azul, embora em outro tecido, com bordados que cintilavam discretamente sob a luz dos lustres. Teus cabelos estavam presos por um delicado ornamento, e o mesmo perfume de jasmim e âmbar acompanhava teus movimentos.

Parei diante de ti.

Perguntaste-me por que te observava daquela maneira.

Respondi que procurava compreender como uma única mulher podia reunir tantas versões da felicidade: a desconhecida que despertara minha curiosidade, a companheira que conquistara minha confiança, a amante que incendiara meus sentidos e a pessoa cuja presença tornara mais generosa minha maneira de compreender a vida.

Não respondeste imediatamente.

Apenas ergueste a mão até meu rosto, acariciando-o com uma delicadeza que me devolveu, por um instante, à emoção de nosso primeiro encontro.

Então me beijaste.

O salão, com toda a sua magnificência, pareceu recolher-se ao redor daquele gesto. Os lustres continuaram acesos, as fontes prosseguiram seu murmúrio e as embarcações mantiveram seus percursos. Nada extraordinário aconteceu ao mundo.

Mas dentro de mim, mais uma vez, tudo se transformou.

Compreendi, naquele instante, que a paixão ilimitada não consiste em prometer sentimentos superiores à própria condição humana. Consiste em descobrir que o amor pode aprofundar-se sem perder o encantamento, que a ternura não precisa extinguir o desejo e que a convivência, quando alimentada pelo respeito e pela admiração, pode tornar cada reencontro tão precioso quanto o primeiro.

VIII — O ÚLTIMO BEIJO DE UMA NOITE QUE NÃO QUERIA TERMINAR

Abracei-te junto à balaustrada, enquanto a noite descia sobre Veneza.

Teu perfume permaneceu entre nós, discreto e inconfundível. Procurei dizer alguma coisa que estivesse à altura daquela felicidade, mas novamente me faltaram palavras. Sorri de minha antiga pretensão de poeta, pois nenhum verso, por mais cuidadosamente elaborado, conseguiria traduzir a plenitude daquele momento.

Tu percebeste minha hesitação e perguntaste o que eu desejava confessar.

Olhei para as águas, para os palácios iluminados e para o céu onde surgiam as primeiras estrelas. Depois voltei-me para ti, reconhecendo que não precisava recorrer à eloquência dos grandes amantes para expressar uma verdade tão simples.

Disse apenas que, se me fosse concedido atravessar novamente todos os caminhos de minha existência, com suas alegrias, erros, incertezas e desencontros, não pediria uma vida sem sofrimento, nem riquezas que me poupassem das dificuldades. Desejaria somente conservar a possibilidade de encontrar-te outra vez, naquela mesma escadaria, e ter a coragem de oferecer-te meu coração.

Repousaste a cabeça sobre meu peito.

Permanecemos assim enquanto a música se dissolvia lentamente pelos corredores do palácio.

E foi ali que descobri a mais bela distinção entre perfumes, palavras e paixões: os perfumes se dispersam, as palavras podem ser esquecidas, e até os instantes mais intensos acabam entregues ao passado. Mas o amor que cultivamos com sinceridade permanece na maneira como tocamos a vida um do outro.

Porque a verdadeira paixão não é aquela que exige a eternidade para justificar sua grandeza. É aquela que torna extraordinário o tempo que nos foi concedido.

E se algum dia me perguntarem qual foi a mais bela poesia que conheci, não citarei versos, livros ou nomes ilustres. Direi que foi teu perfume ao aproximares-te, tua voz ao pronunciares meu nome e o beijo com que transformaste uma tarde comum na mais inesquecível declaração de amor de minha existência.

(Betto Gasparetto – 2019)

Um Frio Olhar se Distancia no Vazio

Posted in Sem categoria on 4 de novembro de 2026 by Prof Gasparetto

Crônica romântica em duas partes — Entre as promessas do amor e a melancolia das despedidas

(Betto Gasparetto)

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I — O ÚLTIMO INVERNO DAS PROMESSAS

Há despedidas que principiam muito antes da partida. Nascem de um silêncio prolongado, de uma palavra que se perde entre duas vontades ou de um olhar que, outrora tão generoso, começa a procurar horizontes onde já não conseguimos reconhecer nosso lugar. E talvez não exista sofrimento mais discreto do que perceber, ainda nos braços de quem amamos, que alguma distância desconhecida já se estabeleceu entre dois corações.

Naquela manhã de inverno, enquanto o trem atravessava os Alpes, compreendi que certas viagens não nos conduzem propriamente a algum destino. Levam-nos, antes, ao encontro daquilo que durante muito tempo procuramos evitar: a verdade de nossos sentimentos.

O vagão, revestido de madeiras nobres e iluminado por discretas luminárias de bronze, parecia pertencer a uma época em que as pessoas ainda encontravam tempo para contemplar a paisagem e escrever cartas. Sobre a pequena mesa repousavam uma xícara de café, algumas flores e uma fotografia antiga. Ao meu lado, o relógio de bolso que herdara de meu pai continuava a cumprir sua obrigação com uma fidelidade que, naquele momento, me pareceu quase cruel.

Lá fora, as montanhas erguiam suas faces cobertas de neve, indiferentes às inquietações humanas. Os pinheiros desapareciam sob o manto branco, e os trilhos, desenhando curvas entre precipícios e vales, conduziam a locomotiva por uma extensão de silêncio que nenhuma palavra seria capaz de interromper.

Segurava tua fotografia entre os dedos.

Nela, teu sorriso conservava a espontaneidade de nosso primeiro encontro. Recordei aquela tarde distante, quando te vi pela primeira vez numa pequena livraria, junto à praça de uma cidade que hoje me parece existir apenas na memória. Procuravas um volume de poemas antigos, e eu, por uma dessas coincidências que os homens costumam atribuir ao destino, estendera a mão para alcançar exatamente o mesmo livro.

Sorriste diante do embaraço. Pedi desculpas, embora secretamente desejasse que aquele pequeno acidente se prolongasse. Conversamos sobre literatura, viagens e sobre a estranha capacidade que certas palavras possuem de revelar sentimentos que jamais tivemos coragem de confessar.

Ao despedirmo-nos, disseste que algumas histórias mereciam ser lidas duas vezes.

Passei os dias seguintes perguntando a mim mesmo se aquela observação se referia ao livro ou ao nosso encontro.

Voltamos a nos ver. Primeiro, por acaso; depois, por uma vontade que nenhum de nós procurou disfarçar. Caminhamos por jardins, visitamos antigas galerias, atravessamos pontes iluminadas pelo crepúsculo e aprendemos, pouco a pouco, a reconhecer o significado dos menores gestos.

Havia em ti uma ternura que não exigia demonstrações grandiosas. Bastava-te que eu estivesse presente, que escutasse tuas inquietações e que soubesse distinguir, em teus silêncios, o que as palavras não conseguiam revelar.

Foi numa noite de outono que me confessaste teu medo de amar.

Perguntei-te por quê.

Respondeste que as coisas mais belas da existência eram também aquelas cuja perda mais nos assustava.

Na ocasião, julguei que meu afeto seria suficiente para dissipar semelhante temor. Prometi permanecer, não por obrigação ou conveniência, mas porque nenhuma perspectiva de futuro me parecia tão desejável quanto aquela em que tua presença acompanhasse meus dias.

Entretanto, a vida possui maneiras singulares de contrariar nossas certezas.

Vieram os compromissos, as viagens, os projetos adiados e as pequenas desatenções que, acumuladas, transformam a convivência num território de expectativas frustradas. Começamos a confundir o amor com a segurança de possuí-lo. Já não perguntávamos se o outro estava feliz; supúnhamos que a permanência bastava como resposta.

E assim, sem grandes discussões ou acontecimentos extraordinários, permitimos que a distância ocupasse os espaços antes reservados à ternura.

Recordo nossa última noite.

Estávamos diante de uma janela aberta para a cidade. As luzes se acendiam lentamente, e a chuva começava a desenhar caminhos sobre os vidros. Perguntei-te se ainda acreditavas em nossas antigas promessas.

Demoraste a responder.

Quando finalmente voltaste o rosto para mim, percebi uma tristeza que jamais havia encontrado em teus olhos.

Disseste que ainda me amavas, mas já não sabias se conseguíamos fazer bem um ao outro.

Tua sinceridade feriu-me mais profundamente do que qualquer acusação.

Quis contestar, recordar nossos dias felizes, enumerar as razões pelas quais deveríamos continuar. Entretanto, compreendi que o amor não se sustenta apenas pela beleza do que foi vivido. Necessita também de cuidado no presente e de coragem para enfrentar aquilo que ameaça seu futuro.

Na manhã seguinte, partiste.

Não houve palavras ásperas, promessas de vingança ou despedidas teatrais. Apenas um abraço prolongado, desses em que duas pessoas procuram conservar, por alguns instantes, aquilo que já não conseguem proteger.

Desde então, aprendi que a ausência nem sempre começa quando alguém atravessa uma porta.

Às vezes, começa quando dois olhares deixam de encontrar a mesma esperança.

II — O OLHAR QUE O TEMPO NÃO CONSEGUIU ALCANÇAR

O trem avançava lentamente pela paisagem gelada, e eu permanecia diante da janela, como se nas montanhas pudesse descobrir alguma explicação para aquilo que nos acontecera.

Havia passado quase um ano desde nossa despedida.

Durante esse tempo, procurei preencher os dias com ocupações que me poupassem da companhia de minhas próprias lembranças. Trabalhei além do necessário, visitei cidades que desconhecia e aceitei convites que, em outras circunstâncias, teria recusado. Descobri, porém, que a distância geográfica pouco significa quando a memória insiste em conservar alguém nas regiões mais íntimas do pensamento.

Em cada estação ferroviária, havia uma mulher cujo perfil, por um instante, recordava o teu. Em cada livraria, meus olhos procuravam involuntariamente os volumes que costumavas admirar. E quando a noite chegava, trazendo consigo a serenidade que tantos desejam, eu experimentava aquela inquietação particular de quem possui muitas lembranças e nenhuma certeza.

Não era apenas tua presença que me fazia falta.

Sentia saudade da pessoa que eu havia sido ao teu lado.

Contigo, aprendera a contemplar a beleza de coisas que antes me pareciam insignificantes. Uma flor esquecida sobre a mesa, a música distante de um piano, o perfume da chuva sobre as pedras antigas ou o simples prazer de compartilhar o silêncio haviam adquirido significados que nenhuma riqueza poderia substituir.

Sem ti, o mundo não perdera sua beleza. Perdera, contudo, a cumplicidade com que eu costumava contemplá-la.

Foi então que compreendi uma verdade que meu orgulho demorara a aceitar: amar alguém não nos concede o direito de exigir sua permanência, assim como partir não apaga necessariamente a sinceridade de um sentimento.

Talvez tivéssemos sido felizes na medida de nossas possibilidades. Talvez nos faltasse maturidade para compreender que a paixão, por mais intensa, não dispensa a delicada disciplina do cuidado. Ou talvez a vida, em sua imprevisibilidade, nos houvesse colocado diante de caminhos que não soubemos percorrer juntos.

Não encontrei resposta definitiva.

E, pela primeira vez, deixei de procurá-la.

O trem atravessou um túnel, mergulhando o vagão numa breve escuridão. Meu reflexo surgiu sobre o vidro, sobreposto à imagem das montanhas que desapareciam. Observei aquele homem de expressão cansada, cabelos cuidadosamente penteados e mãos ainda ocupadas com uma fotografia que o tempo começava a amarelecer.

Perguntei-me quantas vezes confundira saudade com esperança.

A resposta não veio.

Quando a luz regressou, o vale se abriu diante de mim. Pequenas casas de telhados brancos repousavam entre árvores cobertas de neve, e uma igreja antiga erguia seu campanário acima da paisagem. Ao longe, um rio atravessava o silêncio da manhã, seguindo seu curso sem jamais exigir que as águas retornassem à nascente.

Pensei em ti.

Imaginei que talvez estivesses diante de outra janela, contemplando uma paisagem diferente. Quem sabe tivesses encontrado a serenidade que tanto procuravas. Talvez um novo amor houvesse despertado teu sorriso, ou talvez preferisses a tranquilidade de uma existência sem promessas que precisassem ser cumpridas.

Pela primeira vez, essa possibilidade não despertou ressentimento.

Desejei apenas que fosses feliz.

Não porque tivesse deixado de te amar, mas porque começava a compreender que o amor, quando verdadeiramente generoso, não transforma a felicidade alheia numa ofensa à própria solidão.

Aproximei a fotografia da luz.

Teus olhos permaneciam os mesmos. Havia neles uma alegria que o papel conservara intacta, embora nossas vidas tivessem seguido caminhos diferentes. Passei delicadamente o polegar sobre a borda envelhecida e recordei uma frase que certa vez me disseste, enquanto caminhávamos sob as árvores de um jardim:

“Há pessoas que não permanecem em nossa vida, mas continuam presentes na maneira como aprendemos a viver.”

Na ocasião, considerei tuas palavras excessivamente melancólicas.

Agora, compreendia sua delicada sabedoria.

Guardei a fotografia no bolso interno do paletó, junto ao coração. Não desejava destruí-la, tampouco continuar consultando-a como quem procura numa imagem a promessa de um regresso. Bastava-me reconhecer que aquele amor fizera parte de minha existência e que sua lembrança não precisava transformar-se numa condenação.

O relógio de bolso marcou o meio-dia.

Pela janela, avistei uma pequena estação ferroviária, cercada de montanhas e pinheiros. Algumas pessoas aguardavam na plataforma, protegidas por casacos pesados. Entre elas, um casal de idosos permanecia abraçado, partilhando um único guarda-chuva apesar de a neve já ter cessado.

Observei-os com inesperada ternura.

Talvez tivessem atravessado muitos invernos juntos. Talvez conhecessem as dores que eu apenas começava a compreender. Ou talvez sua felicidade fosse simplesmente a consequência de incontáveis escolhas discretas, renovadas ao longo dos anos.

Sorri.

Não com a alegria despreocupada de outrora, mas com a serenidade de quem finalmente admite que a vida continua oferecendo beleza mesmo depois de uma perda.

Quando o trem retomou a viagem, deixei a fotografia guardada.

Já não precisava contemplá-la para reconhecer teu lugar em minha história.

As montanhas recuavam lentamente, e o céu começava a adquirir uma luminosidade suave. O café esfriara sobre a mesa, as flores permaneciam imóveis no pequeno vaso, e o relógio continuava sua marcha indiferente.

Pensei que, se algum dia voltássemos a nos encontrar, gostaria de olhar-te sem acusações, sem cobranças e sem o desejo de recuperar aquilo que o tempo havia transformado. Talvez pudéssemos conversar como duas pessoas que se conheceram profundamente e que, apesar de tudo, conservaram respeito pela história compartilhada.

E, se esse encontro jamais acontecesse, ainda assim desejaria agradecer-te.

Pelos dias luminosos, pelas noites de confidências, pelas descobertas que fizemos juntos e até pela tristeza que me ensinara a distinguir o amor da necessidade de possuir.

Encostei a cabeça na poltrona e fechei os olhos por alguns instantes.

O trem seguia para uma cidade onde ninguém conhecia nossa história. Havia compromissos à minha espera, ruas que eu ainda não percorrera e talvez encontros que o futuro reservava com sua habitual discrição.

Quando tornei a olhar pela janela, a paisagem já era outra.

Compreendi então que não era teu olhar que se distanciava no vazio. Era o meu que, durante tanto tempo, permanecera preso ao lugar de tua partida.

E enquanto os Alpes desapareciam lentamente atrás de nós, senti que a saudade, embora ainda presente, começava a perder sua aspereza.

Não havia esquecido teu rosto, nem renegado nosso amor.

Apenas descobrira que algumas despedidas não exigem o esquecimento para encontrar seu desfecho.

Porque há amores que não regressam, mas deixam em nossa alma uma claridade que nem o mais rigoroso inverno consegue extinguir.

(Betto Gasparetto – 2020)

Navegar é Preciso, mas Te Amar é meu Destino

Posted in Sem categoria on 3 de novembro de 2026 by Prof Gasparetto

Crônica romântica em duas partes — Entre a ventura dos encontros e a melancolia dos desencontros

(Betto Gasparetto)

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 I — O PORTO ONDE MEU CORAÇÃO ANCOROU

Há encontros que não pertencem ao calendário dos homens. Acontecem quando a vida, cansada de suas próprias incertezas, resolve conceder ao coração uma felicidade que ele já não ousava esperar. Assim foi naquela manhã em que te encontrei à beira de um lago, entre montanhas revestidas de verde e águas tão transparentes que pareciam guardar, em suas profundezas, todos os segredos do céu.

O pequeno barco de madeira repousava junto ao cais, como se aguardasse havia séculos a chegada de dois desconhecidos destinados a partilhar a mesma travessia. Não havia solenidade naquele instante. O sol espalhava sua claridade sobre as encostas, os peixes deslizavam entre as pedras submersas, e uma brisa delicada percorria as margens, indiferente ao extraordinário acontecimento que principiava dentro de mim.

Tu sorrias. E naquele sorriso havia uma espécie de liberdade que nenhuma riqueza poderia comprar. Teus cabelos, tocados pelo vento, pareciam desafiar a disciplina dos penteados, enquanto teus olhos procuravam os meus com a naturalidade de quem encontra, numa terra estrangeira, alguém que conhece desde a infância.

Ofereci-te a mão para entrares na embarcação. Aceitaste-a sem cerimônia, mas teus dedos permaneceram entre os meus por um instante além do necessário. Foi então que compreendi como os acontecimentos decisivos da existência dispensam testemunhas, discursos e celebrações. Às vezes, basta o breve contato de duas mãos para que um homem abandone, sem resistência, todas as certezas que julgava possuir.

Partimos lentamente. O barco cortava a superfície tranquila, deixando atrás de si um caminho que as águas logo desfaziam. Falávamos de coisas pequenas: lugares que desejávamos conhecer, livros ainda não lidos, músicas que sobreviviam à passagem dos anos e sonhos que, por excessiva prudência, havíamos aprendido a esconder. Entretanto, sob a aparência daquela conversa despretensiosa, nossos sentimentos ensaiavam uma linguagem que nenhum de nós dominava inteiramente.

Perguntaste-me se eu gostava de navegar. Respondi que sempre admirara os horizontes, embora jamais houvesse encontrado razão suficiente para persegui-los. Riste de minha gravidade, como quem reconhece o esforço inútil de um homem tentando disfarçar a própria emoção.

Naquele momento, aproximaste-te para observar os peixes que acompanhavam a embarcação. Apoiei delicadamente a mão em tua cintura, receando que perdesses o equilíbrio. Tu, porém, permaneceste junto de mim, tranquila, como se aquele gesto fosse a coisa mais natural do mundo.

Foi assim que descobri uma verdade cuja simplicidade me constrangeu: durante tantos anos, eu procurara a felicidade em lugares distantes, sem perceber que ela talvez não fosse um destino, mas uma companhia.

O lago parecia não ter fim. As montanhas erguiam-se majestosas, os pássaros atravessavam o céu e a manhã amadurecia em silêncio. Contudo, já não me interessava saber até onde poderíamos chegar. Bastava-me a proximidade de teu rosto, o calor de tua presença e a possibilidade de que, ao regressarmos, ainda desejasses permanecer ao meu lado.

Não te prometi mares sem tempestades, tampouco uma existência protegida de todas as dores. Seria desonesto oferecer aquilo que nem os reis puderam assegurar aos seus amados. Disse-te apenas que, enquanto me fosse permitido escolher, preferiria enfrentar contigo as incertezas da travessia a contemplar sozinho a segurança de qualquer porto.

Tu me olhaste longamente e repousaste a cabeça sobre meu ombro. Nenhuma resposta teria sido mais eloquente.

Naquele dia, pela primeira vez, deixei de perguntar à vida para onde deveria seguir.

II — AS MARÉS QUE NÃO SOUBERAM NOS SEPARAR

Mas a felicidade, por mais sincera que seja, não recebe do tempo qualquer privilégio. Os dias prosseguem com sua indiferença habitual, e os amantes, que imaginam ter descoberto uma exceção às leis do mundo, acabam percebendo que também lhes pertencem as partidas, as hesitações e os silêncios.

Não sei precisar quando nossos caminhos começaram a afastar-se. Talvez tenha sido numa tarde em que uma palavra permaneceu sem resposta, ou numa manhã em que os compromissos pareceram mais urgentes que os afetos. A verdade é que raramente os grandes desencontros anunciam sua chegada. Instalam-se discretamente, como a umidade nas paredes de uma casa antiga, até que um dia reconhecemos o estrago sem recordar o primeiro sinal.

Continuávamos a nos querer, mas já não sabíamos encontrar o caminho um do outro. Tu esperavas uma palavra que eu julgava desnecessária; eu aguardava um gesto que teu orgulho, talvez ferido, não permitia oferecer. E assim, entre expectativas jamais confessadas, transformamos pequenos equívocos em distâncias que nenhum mapa poderia medir.

Recordo-me da última vez em que estivemos junto àquele cais. O barco permanecia no mesmo lugar, envelhecido apenas pela ação das estações. As montanhas conservavam sua imponência, e as águas, sua transparência quase insolente. Tudo parecia disposto a repetir nossa primeira manhã, exceto nós.

Falamos pouco. Havia em teus olhos uma tristeza que eu não soube aliviar, e em minha voz uma prudência que, naquele instante, se confundia com covardia. Desejei abraçar-te, pedir que ficasses, confessar que nenhuma das razões de nosso afastamento valia o sacrifício de nossa ternura. Entretanto, permaneci imóvel, prisioneiro daquela absurda dignidade que tantas vezes impede os homens de salvar aquilo que mais amam.

Partiste sem acusação. E talvez essa tenha sido a parte mais dolorosa de nossa despedida. Teria sido mais fácil suportar tua cólera, pois nela ainda encontraria uma forma de presença. Mas tua serenidade, tão cuidadosamente construída sobre a tristeza, deixou-me diante de uma ausência que não sabia combater.

Durante muito tempo evitei regressar ao lago. Temia descobrir que a paisagem permanecera bela sem nós, como se o mundo não tivesse obrigação alguma de lamentar nossos desencontros. E, naturalmente, não tinha.

Foi numa tarde de outono que finalmente voltei. O cais estava quase deserto, e o barco, preso à mesma amarra, oscilava suavemente. Sentei-me à margem e contemplei as águas, tentando compreender por que certas lembranças, embora dolorosas, continuam sendo os lugares mais preciosos de nossa existência.

Então ouvi passos atrás de mim.

Não me voltei imediatamente. Há esperanças que, depois de muito contrariadas, aprendem a desconfiar até da própria felicidade.

Mas tua voz pronunciou meu nome.

Quando me ergui, estavas ali. Não trazias explicações preparadas nem promessas grandiosas. Havia em teu semblante a delicada gravidade de quem conhecera a ausência e descobrira que nem toda separação significa o fim do amor.

Perguntaste-me se o barco ainda navegava.

Respondi que sim, embora houvesse passado demasiado tempo à espera de uma razão para soltar suas amarras.

Sorriste. Era o mesmo sorriso da primeira manhã, agora enriquecido por uma tristeza que ambos compreendíamos. Aproximaste-te e ofereceste-me a mão. Dessa vez, fui eu quem demorou um instante além do necessário para soltá-la.

Não procuramos recuperar os dias perdidos. Seria inútil exigir do passado aquilo que ele já não poderia devolver. Tampouco prometemos que jamais voltaríamos a nos ferir. Havíamos aprendido que o amor não se torna verdadeiro pela ausência de dificuldades, mas pela coragem de reconhecê-las sem abandonar o respeito, a ternura e a liberdade de quem amamos.

Entramos no barco quando o sol começava a esconder-se entre as montanhas. As águas receberam nossa embarcação com a mesma tranquilidade de outrora, e o vento, sem conhecer nossas histórias, acariciou novamente teu rosto.

Desta vez, não falamos de destinos distantes. Conversamos sobre a vida que ainda poderíamos construir, sobre os erros que não desejávamos repetir e sobre a delicada responsabilidade de cuidar de um sentimento que sobrevivera à nossa própria imperícia.

Quando a noite principiou a cobrir o lago, aproximaste-te e repousaste a cabeça sobre meu peito. Envolvi-te nos braços, sentindo que nenhuma vitória seria comparável àquela reconciliação silenciosa.

Perguntaste-me, então, se eu ainda desejava navegar pelo mundo.

Contemplei as montanhas, o horizonte e as primeiras estrelas refletidas nas águas. Durante alguns instantes, pensei em todos os lugares que jamais conheceríamos, nas viagens que talvez não pudéssemos realizar e nas incontáveis possibilidades que a vida reservara a outros homens.

Depois olhei para ti.

E compreendi que não precisava possuir o mundo para sentir-me inteiramente vivo.

Respondi, enfim, com a serenidade de quem encontrara sua mais profunda convicção:

— Navegar é preciso, meu amor. Só se for em teus braços.

E naquela noite, enquanto o barco deslizava lentamente sob as estrelas, descobri que os encontros nos ensinam a amar, os desencontros nos obrigam a compreender, mas somente a escolha de permanecer transforma duas histórias numa existência compartilhada.

Porque o verdadeiro porto não é aquele onde terminam as viagens. É aquele onde, depois de todas as tempestades, ainda encontramos alguém disposto a receber nossa mão.

(Betto Gasparetto – 2023)

Entre o Luar que Dançou Sobre Nossos Olhares

Posted in Sem categoria on 2 de novembro de 2026 by Prof Gasparetto

Poema em três partes — O Encontro, o Desencontro e a Permanência do Amor

(Betto Gasparetto)

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I — O ENCONTRO SOB O LUAR

Naquela noite em que a lua, soberana,
Vestiu de prata as águas do jardim,
Tua beleza, tão serena e humana,
Despertou sentimentos dentro de mim.

Entre colunas de esplendor antigo,
Tua mão encontrou a minha mão;
E o mundo, que jamais fora meu abrigo,
Tornou-se a mais ditosa habitação.

Teu vestido esmeralda, ao vento brando,
Desenhava nas pedras seu fulgor;
E eu, junto ao teu semblante caminhando,
Aprendia os primeiros dons do amor.

As montanhas guardavam seus segredos,
E o lago adormecia sob o luar;
Enquanto nossos tímidos enredos
Encontravam coragem para amar.

Não te ofereci riquezas ou coroas,
Nem glórias que os monarcas podem ter;
Pois as promessas verdadeiramente boas
São aquelas que sabemos merecer.

E quando, entre meus braços, repousaste,
Com a fronte inclinada sobre a minha,
Senti que, sem palavras, me entregaste
A paz que minha alma desconhecia.

II — O DESENCONTRO DAS ÁGUAS SILENCIOSAS

Mas veio o tempo, com seu passo austero,
E trouxe a despedida ao nosso chão;
Partiste sem ouvir o que mais quero,
Levando em teus silêncios meu coração.

A mesma lua contemplava o lago,
As mesmas fontes repetiam seu cantar;
Mas cada noite me entregava o amargo
Ofício de aprender a te esperar.

Voltei ao mármore daquela escadaria,
Onde teu rosto iluminou meu existir;
E perguntei à noite se algum dia
Teus passos voltariam a me seguir.

Não amaldiçoei os rumos da partida,
Nem fiz da tua ausência uma prisão;
Pois quem amou com nobreza nesta vida
Não transforma uma lembrança em punição.

Vi outras primaveras nas colinas,
E outras luas nascerem sobre o mar;
Mas nem as mais formosas disciplinas
Ensinaram meu peito a te olvidar.

Guardei a flor que usaste naquela noite,
Já sem perfume, brilho ou esplendor;
E nela reconheci, sem qualquer açoite,
A silenciosa dignidade de um amor.

III — O REGRESSO DAS PROMESSAS

Certa manhã, quando a estação mudava,
E o sol beijava as águas do jardim,
Teu vulto entre as colunas caminhava,
Como se o tempo regressasse para mim.

Não houve indagação sobre os caminhos,
Nem julgamento das razões do teu partir;
Pois dois amantes, após tantos espinhos,
Às vezes só precisam consentir em sorrir.

Teus olhos conservavam a ternura,
Embora outras tristezas revelassem;
E percebi que a mais profunda formosura
Nasce das dores que os anos nos deixassem.

Aproximei-me sem cobrar o passado,
Sem perguntar se voltarias a ficar;
E teu sorriso, delicado e demorado,
Foi quanto me bastou para recomeçar.

Não quis vencer o tempo ou sua sorte,
Nem prometer um céu sem solidão;
Desejei que, até a chegada da morte,
Pudéssemos repartir o mesmo pão.

E quando a lua novamente apareceu,
Sobre as montanhas e as águas do lugar,
Tua mão, que outrora se perdeu da minha,
Voltou, sem hesitar, a me procurar.

SONETO ARCADIANO — A CONSTÂNCIA DE DOIS CORAÇÕES

À beira do sereno lago amado,
Onde a lua repousa em doce véu,
Contemplo o teu semblante iluminado,
Mais puro que o fulgor do próprio céu.

Se outrora nos feriu o cruel destino,
E a ausência nos roubou tanta ventura,
Hoje bendigo o encontro peregrino
Que restituiu ao peito a formosura.

Não peço aos deuses glória ou majestade,
Nem os tesouros que a fortuna encerra;
Basta-me o teu olhar, minha beldade.

Pois se o amor florescer sobre esta terra,
Há de vencer o inverno da saudade
E dar-nos paz, enquanto a vida impera.

(Betto Gasparetto – 2020)

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